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#5

por fernandodinis, em 31.03.15

São imagens sobrepostas, os ramos da árvore
perene, sobre a tua pele, tatuagens de sombra,
afinal ramos que no teu corpo quieto parecem veias
em dança, não de sangue mas de seiva, os teus pés
desnudos que o lençol descobre são as raízes revoltas,
linhas de água a procurarem fendas na terra, muitas
sensações antes de qualquer toque. Quero um vento forte
de dezembro, que arrebate os teus ramos, as tuas veias,
e levante o lençol como uma película fina, qualquer matéria
translúcida, e me devolva o teu corpo como uma complexa
matriz de caminhos insondáveis. Quero uma tarde de frutas
adocicadas, lábios pegando na pele, resina, uma perdição
qualquer de poema. O teu corpo frondoso como o tronco a
tingir o firmamento de revoltos veios, oh assombrosa delícia,
o doce permanente dos frutos, uma ponte entre nossa bocas
e um nevoeiro a impedir a noção de distâncias. Esquece
dezembro. Dança assim só na placidez de junho, no sangue
dos morangos apertados entre os dedos. Há calor
para que nem um lençol permaneça nessa árvore, o teu corpo
por inteiro entregue à nudez do que chamámos raízes.
E espraio-me nas folhas, feito vento, todo sensação.

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publicado às 14:04

Dia Mundial da Poesia

por fernandodinis, em 27.03.15

poesia.bmp

poesia1.bmp

 

Fui convidado a ler no Bookpoint da Portugal Telecom, no Dia Mundial da Poesia. Levei comigo o livro Poemas Completos do Herberto Helder. Falei de magia, das frontreiras da poesia, da densidade e textura de certas palavras, sempre longe, muito longe de imaginar que na segunda-feira, três dias depois, o Herberto nos deixaria. Ficou e ficará a sua obra. 

 

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publicado às 19:30

E Nós? #5

por fernandodinis, em 27.03.15

From US Marine to Zen Monk from Krzysztof Gonciarz on Vimeo.

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publicado às 15:50

#4

por fernandodinis, em 26.03.15

Há um ofício oculto nestas mãos

utensílios invisíveis, saberes milenares,

ou talvez apenas a indefinida imensidão

do desconhecido. Algo do não explicável

que as guia, constelações, fés, mitos, ou

apenas a urgência da certeza do gesto.

Um acreditar na existência, para lá

do que se envelhece, estação a estação.

Pressentimos a habilidade pela dança no negrume,

tão sábias perante o vazio.

Imagine-se que modelem poemas, aproximações, desencantos.

Acenam ao lúgubre quanto cumprimentam a luz,

acção do pensamento ainda por vir.

Que lhes resta senão vida própria

semente, raiz, ocupação do espaço?

Se acenam existem, se quietas agridem.

Que ferramentas além dos dedos, um a um,

concertados ao que é tocável, em desordem

na vastidão do éter.

O que atingem nos estalos durante o sono?

Um córtex para cada falangeta, se as unhas da matéria

do cabelo; ora desirmanadas, ora resina densa

do que é intemporal e inominável.

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publicado às 14:18

Haikus #7

por fernandodinis, em 25.03.15

chocam céus no horizonte

fica dia na noite mais escura

trovão a reverberar

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publicado às 14:13

Os Outros #1

por fernandodinis, em 20.03.15

O luxo do espaço é um talento da árvore

 

Herberto Helder

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publicado às 09:58

#3

por fernandodinis, em 19.03.15

Há um lobo dentro desta fome
uma génese
embrionária de sobrevivência.
Há caminhos improváveis de luzes
evanescentes, corpos em situação de alimento, 
há qualquer coisa de sanguíneo
nas árvores de ruas despidas, adolescências
urgentes de loucura. Há mundos e dias,
flores e frutos, filigranas, ouro;
um manancial onde o poema se fecunda, desabrocha,
e trepa pelas paredes. Chega à boca feito fome,
feito lobo urgente, quente de frémito.
Há violência tácita. Há assombro
e tesão. Amor de salivas e luas.
Há um silêncio de verão, de praia incendiária,
tardes de janelas abertas ao fresco do oriente.
Há palavras feitas deus, acreditamo-las como
armas, braços e pernas apontados aos corações.
Somos a dura membrana dos instrumentos, a parede
melódica, onda a morrer no quebramar.
Tudo é escalarte, rubicundo, vermelho, rubro,
oh tudo é sangue na sede desta procura.

 

Somos mãos sobre a mesa a dividir pão.

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publicado às 10:38

#2

por fernandodinis, em 18.03.15

Mãos vítreas a modelarem madrugadas,

fazendo de cada hora algo na iminência

de se quebrar. É essa a força do poema

que cerce de sentido, se enovela no escuro.

 

Sou esquecimento.

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publicado às 12:30

Haikus #6

por fernandodinis, em 17.03.15

corre um rio no teu corpo
todo o ar que respiras um lago
água clara e serena

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publicado às 11:11

Haikus #5

por fernandodinis, em 15.03.15

sol de março, dia longo

plácida terra, o canto das aves

amendoeiras a florir

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publicado às 19:02

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