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A Escrita

por fernandodinis, em 24.05.16

É curiosa a força que a escrita exerce sobre mim. Se passo algum tempo sem escrever, torno-me amargo, inquieto. Preciso da sensação de dever cumprido quando se termina um texto, um poema, uma frase. Curiosa a vida que me dá a entender a importância de tantas coisas, e depois parece esconder o que verdadeiramente importa; o que me devolve sossego e uma suave sensação de paz. Acabo por redescobrir a escrita de uma forma orgânica, como uma necessidade básica; um absurdo, visto escrever nunca me ter sido um prazer.

Não me espanta, portanto, tantos escritores falarem da escrita como um mecanismo que deve ser bem oleado, assistido paulatinamente, testado, para que assim lhe seja permitida uma mínima fluidez. Quem lida com a escrita conhece os perigos por não mexer nesta máquina durante uns tempos. Há quem não corra o risco um único dia que seja.

O meu filho que frequenta o Terceiro Ano fulmina-me a cada composição que tem de fazer como trabalho de casa: “E agora? Escrevo o quê?” E, por alguns momentos, desejo profundamente que os trabalhos fossem de matemática, com soma de fracções, dízimas, unidades de distância e peso, cálculos de área de poliedros, situações problemáticas de três operações. Vejo nos olhos do meu filho o assombro pelo desconhecido, pela tarefa que parece não ter uma lógica concreta, que lhe possa ser explicada com um princípio, meio e fim claros e sem entraves para a sua compreensão.

Não há outra solução que começar a errar. Escrevemos as primeiras palavras com a certeza de que apenas ocupam um lugar temporário, uma existência curta com um fim anunciado. Mas são elas o barro tosco por onde começamos a possível modelagem de uma forma. Quando desperto deste raciocínio, constato que os olhos do meu filho ainda se mantêm pregados em mim. Pego num pedaço de barro e atiro à parede, perguntando: “É sobre o quê?” Responde-me “É sobre a Escola!” Encho outra mão de barro e volto a atirar: “Quando pensas na escola, lembras-te de que coisas?” O meu filho suspira fundo e pousa o lápis. Acaba por ser ele a mexer um pouco nos dois pedaços de barro que acabei de atirar. “É onde aprendo, onde tenho amigos e brinco. A professora ensina-nos as várias disciplinas…” Encontro um possível fio de ariadne: “Qual é a disciplina de que mais gostas?” Volta a pegar no lápis e usa-o como uma baqueta de bateria sobre a folha ainda sem uma única palavra escrita e responde: “Matemática!”

É sempre com custo que chegamos ao fim, da mesma forma que a escrita deste texto requereu de mim muito mais do que inicialmente previra. Escrever nunca foi um prazer. Ler sim. Ler é prazer puro. Por isso respeito tantos os escritores de quem gosto e que me preenchem. Os que nunca deixam a máquina enferrujar.

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publicado às 13:00


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