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Arquivo

por fernandodinis, em 08.07.16

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 © Fernando Dinis - All rights reserved

 

Reconheço que sou péssimo a traçar objectivos. Não por não os cumprir, mas porque invariavelmente se viram contra mim numa dose inconveniente de pressão. Certamente por isso, pouco ligo às passagens de ano. Não comungo do “Este ano é que vai ser!” Ainda que façamos todos os esforços inimagináveis, existem milhentas condicionantes que nos são exteriores e que facilmente deitarão por terra o mais infalível dos planos. E porque também me dedico a demasiadas coisas – também há quem lhe chame procrastinar – o tempo passa e constato que não fiz nem metade daquilo que, chamemos-lhe inconscientemente, desejamos concretizar.

Tudo isto para chegar ao que interessa. Ao longo de todos estes anos de piano, composições aqui, bandas sonoras ali, improvisações acolá, acabei por concluir que todo o meu material se encontra disperso. Sem o verbalizar, fui adiando a produção de um disco onde compilasse o que considero mais importante para o ano em que celebrasse os 40. Como já entenderam, este é o ano.

Ando a ensaiar. A experimentar novos arranjos, diferentes abordagens. A simples troca de uma dinâmica romântica pela inflexível medição de tempo através do metrónomo tem oferecido a músicas já cansadas a revitalização necessária para me devolver o entusiasmo de outrora. E ainda sete ou oito músicas que nunca foram gravadas.

Existe porém uma condição capital no meio de todos estes intentos: Não quero que isto se torne uma pressão desagradável, um trabalho que tenha de ser concluído. Como contam muitas histórias zen, o que importa é o caminho, e este, feito de interrupções e de paixões, tem sido percorrido. O resto são números. Quem diz 40, diz 45.

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publicado às 09:18

Todas as Histórias

por fernandodinis, em 06.07.16

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 Vivian Maier

 

O escritor Vila-Matas confessa no seu livro Da Cidade Nervosa que gosta de entrar ao acaso em metros e autocarros sem destino concreto. Não lhe interessa a viagem em si enquanto objectivo de chegar a algum lado. O que procura são histórias que não lhe pertençam; um voyerismo assumido que quase sempre o leva ao espanto e à surpresa. Reincidir nestas viagens é para ele o acto transgressor de um escritor que se serve do alheio como matéria-prima para o seu processo de construção. Procura as vidas que lhe faltam viver, na impossibilidade evidente de sermos tudo e todos. Também o escritor japonês Haruki Murakami escreve os seus contos quase sempre baseados em histórias verídicas de pessoas que lhe são próximas; o que lhe tem valido alguns dissabores pessoais, entre amigos e família. O escritor é assim uma sanguessuga de vivências, um saco vazio sempre pronto a carregar novos produtos, uma memória cujo espaço incrementa à medida que procura, indaga, experiencia. À semelhança de um actor que se despoja do seu interior para encarnar a maior totalidade de uma personagem, também o escritor atravessa o estágio em que se sente despojado de si mesmo. A luta por preencher esse espaço – que julga infértil, que não o impele à criação – condu-lo à procura. O acto criativo depende da vida próxima, de tudo o que não lhe pertence. Não se trata de sentir na pele novidades, situações bizarras, episódios limite. Bastam somente as repetições nos outros do que já viveu; porque no humano, os mesmos actos, jamais se igualam. Eu próprio sinto isso, quando vejo alguém na rua a beijar-se sofregamente. Aconteceu numa tarde destas, enquanto vagueava pelas livrarias de Picoas. Aquele beijo dado por dois estranhos, num auge de paixão absoluta, proporcionou de imediato o estalar de uma nova frase. Acabei por escrevê-la num post e que dizia mais ou menos isto: «Cresci tanto que perdi a capacidade de beijar como um adolescente de rua». Curiosa como a nossa posição social nos obriga – a nada somos obrigados, note-se, mas assim sempre o parece – a mudar ao longo dos anos. Que fará então o escritor perante uma situação destas? Que procurará ele afinal? Preencher o seu saco de matéria-prima para construir, ou antes procurar nos outros a possibilidade da pessoa que podia ter sido? Ou ainda, a pessoa que já não é? Seja qual for a razão, hoje mesmo dei por mim a andar de comboio e de metro a observar as pessoas na expectativa que o fenómeno ocorresse novamente. Não consegui encontrar uma nova frase. Para tudo existe um tempo certo, ou um ângulo exacto de um espaço no largo espectro que o nosso corpo habita e pelo qual se sitia. Para tudo há que contar com a sorte, com o imprevisto. Porque só o imprevisto nos transmite a força e o peso necessários para nos chocalhar. Aí, podem ser encenados à nossa frente todos os episódios possíveis, e de todos eles teremos sempre algo a dizer – escrever. Para isso, há que estar atento; disponível; desprovido de nome; de responsabilidade. Para isso há que nos suster na corda bamba, no fio da navalha, e aceitar o mundo velho, em cada dia novo, num terreno frondoso e pronto a ser desbravado à nossa passagem. Sempre cientes que, quem por nós se cruzar, falar, tocar ou beijar, ficará sujeito à nossa inscrição; à tatuagem da memória. Não condenemos o escritor que decida continuar caminho. Ele não abandona ninguém. Sentir-se-á apenas vazio, apenas isso. Fechá-lo é impossibilitar a viagem ocasional pela vida. E a vida jamais se pode tornar numa carreira de autocarro ou numa linha de metropolitano, com origem e destino.

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publicado às 11:04

A Vida Passiva

por fernandodinis, em 05.07.16

Há um pouco de voo na forma como caminha, os braços adejando, os passos em pequenos saltos e os cabelos curtos revoluteando-se com o vento. Persiste um sorriso na boca, um rasgar de olhos; a dança do corpo a contaminar a face redonda. Os plátanos roubam o horizonte, mas ornamentam os movimentos numa sincronização que se diria orquestrada. É em pessoas assim que acontecem histórias, personagens de livros que se multiplicam em intricadas teias por onde navegarão ao sabor da narrativa. Quase não precisam de nomes. Nomeiam-se pela forma afectada quando acendem cigarros, posam o casaco nas cadeiras das esplanadas ou entram nos táxis simulando altivez. Sigo a uma distância segura, no passeio oposto, a estrada a fazer de rio sem pontes. Não me importa falar, conhecer, ainda que ouvir-lhe a voz poderia ser o bastante para nenhuma destas palavras existir, ou serem outras totalmente diferentes. O que me prende são as conjecturas que batalho em mim mesmo. Possibilidades que se alinham e abrem sulcos na imaginação. Diria que se alcança um estado meditativo, observa-se num silêncio sacralizado, a respiração inaudível e os gestos anulados de quem se abeira de uma ave assustadiça. Mais importante ainda é esta rua quase deserta, o sol oblíquo de fim de tarde, raiando o chão por entre as folhas. Tanto é o calor que até parece que a sombra tem cheiro. O vento descola a roupa, inventa espaços, mas por vezes cessa e tudo estagna placidamente. Observo-a. Prossegue a sorrir. Alguém a ama e lho disse de uma forma unívoca, e ela revisita essas palavras e sorri como se ainda as escutasse. Pressinto-lhe todo o deslumbramento em sentir-se viva, a comoção de saber-se destino da vida de alguém. E eu que quase me excedo ao ponderar atravessar a estrada, obrigo-me a reter o máximo possível desta fracção de tempo, desta condição passiva de existir, e utilizar as palavras para replicar no meu vazio o que tanto preenche os outros.

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publicado às 11:00

Bardo

por fernandodinis, em 04.07.16

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  Entende-se agora a originária tendência de destruição. O corpo aceita melhor a sua finalidade numa dor concreta.

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publicado às 09:17


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