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Gostar de Viver com Menos

por fernandodinis, em 28.11.16

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Uma das poucas vantagens em mudar de casa várias vezes é a de aprendermos a viver com menos. Menos objectos, menos mobiliário, menos livros que temos a certeza de nunca os ler, menos televisores, menos, menos, menos.
Ao longo dos anos, desenvolvemos o gosto pelo minimalismo, talvez porque cheguemos à conclusão de que precisamos de muito pouco para sermos felizes. O momento de viragem é quando o ruído visual já nos incomoda e descobrimos que já não nos identificamos com o célebre caos organizado. Ter um sítio certo para as poucas coisas que possuímos é um descanso mental que considero essencial para quem se dedica a muitas actividades. Cedo um pouco nas estantes dos livros e na secretária. Posso desarrumar toda uma sala para fazer uma fotografia, com iluminação, tripés, reflectores, panos, objectivas, mas quando termino, o gozo em ter o devido lugar para todas as coisas faz sentir-me bem.
Em relação à música, já tive casas em que tinha piano, teclados, guitarras, amplificadores, computadores só para música com cabos por todos os lados, até que cheguei à conclusão que essa permanente oferta visual me fazia dispersar.
Desde 2006 que me dedico totalmente ao piano. Uso pianos digitais por serem mais baratos, silenciosos e, principalmente, por estarem sempre afinados. Assim, arrumei tudo o resto, a nível de experiência, e nunca mais lhe mexi.
Esta ausência de objectos obriga-me, no bom sentido, a focar no que verdadeiramente importa, e a não gastar energias em algo que não irá adiantar em nada na concretização dos meus objectivos. Isto pode soar a uma inflexibilidade militar, mas interiorizando, é muito zen e apaziguante.
A foto acima revela o meu actual espaço de trabalho. A musa, o cadeirão para ler e um simples piano para compor. É importante escolhermos o que queremos na nossa vida, mas tão importante quanto isso, é sabermos dispensar o que não nos interessa. Acreditem que a leveza compensa.

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publicado às 08:45

Os Livros Reencontrados

por fernandodinis, em 25.11.16

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Como fotógrafo, desenvolvo desde 2015 o projecto The Booklovers, onde tenho tido o privilégio de fotografar alguns dos nossos escritores portugueses. Privilégio porque é sempre uma surpresa descobrir a pessoa que existe para lá do que lemos. O Nuno Costa Santos é uma dessas pessoas, já aqui escrevi sobre o seu último romance. O melhor disto tudo é ver as nossas fotos por aí, nas inúmeras actividades em que os escritores acabam por participar. A Livraria Almedina é um desses exemplos, com os encontros Recordar os Esquecidos, onde se fala sobretudo de romances, bons livros, que inexplicavelmente passam ao lado, ou por qualquer razão não são reconhecidos com o seu devido valor. Recordo que num desses encontros alguém falou do Narciso e Goldmundo, extraordinário romance do Hermann Hesse, há muito esgotado. Li-o há alguns anos e para o ter tive mesmo de o comprar a um alfarrabista. Coincidências ou não, o facto é que o livro voltou às livrarias com uma renovada edição. Deixo as duas recomendações. O encontro é já amanhã, às 18 horas.

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publicado às 10:27

O Natal não é quando um homem quer

por fernandodinis, em 24.11.16

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Se existe marca cuja publicidade eu sigo religiosamente é a Intimissimi. Talvez a partir do famoso vídeo onde a Monica Belluci se desdobra em inúmeras personagens – assim uma espécie de manjar paradisíaco para a nossa mente, qual restaurante cerebral com 5 estrelas Michelin –, desde a empregada doméstica submissa à mamã confiante e emancipada, da motard rocky à esposa que se descobre enganada. Todo o vídeo seria de um bom gosto assinalável, não fossem os criativos terem a ideia de meter lá o José Fidalgo a amarfanhar-se dessa espécie divina, profanando-a à banalidade dos comuns mortais, terrenos e coise.

Conclusão, ficou a pensar que todos os portugueses eram assim e de cabeça perdida entrou na primeira Remax para comprar uma casa em Lisboa. Agora já entendeu que temos adeptos do Benfica, homens que usam bolsas à cintura e que o glamour de Lisboa resume-se a uma passeata de domingo pelo Colombo e o Dolce Vita Tejo. Vão ver, é só o mercado imobiliário dar a volta e vende a casa em dois segundos.

Tudo isto para falar da actual publicidade, mais propriamente das imagens de Natal. Então Intimissimi? Onde está a vossa criatividade? Voltamos à lenga-lenga da Mamã Natála e aos ursos de pelúcia e aos saltos altos vermelhos com lingerie? A sério? E aquele cortinado de fundo a lembrar o mais amador set de filme para adultos? Que parte ainda não entenderam que Natal não combina com sensualidade? Natal é filhós e rabanadas e bacalhau cozido e vinho a torto e a direito! Não há cá espaço nem onda para se estrear uma lingerie e apimentar a relação. É impossível. É a janela de tempo errada. Por isso se diz Noite de Consoada, e não Consolada. Não combina, principalmente com as meias e pijamas que os homens recebem. Ficamos claramente em desvantagem. Toda a nossa autoestima e confiança resvala pelo presépio abaixo. Até um José de barro na manjedoura, a fazer contas à vida sobre como apareceu ali o puto, terá mais pujança que nós nessa noite.

Regressem por favor à vossa génese italiana e glamourosa. Deixem-se de neves e Lapónias e lacinhos de vermelho acetinado. Regressem às imagens a preto e branco, aos push-up’s e às bralettes e aos balconettes, que a nossa imaginação trata do resto. E quando a nossa imaginação começa a trabalhar, não existe impossíveis. 

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publicado às 12:41

Acreditar na Humanidade

por fernandodinis, em 23.11.16

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Assisti ontem à segunda parte do filme Humans, um projecto do fotógrafo Yann Arthus-Bertrand. Um verdadeiro murro no estômago, ou se quisermos, uma silenciosa convulsão na nossa consciência. Não tenciono levantar grandes questões morais, visto que, perante os testemunhos apresentados, todos nos sentiremos fúteis, insensíveis e ignorantes (talvez mesmo hipócritas) perante o mundo ao qual todos pertencemos.

A condição humana é assim uma delicada extensão de limites contraditórios, de injustas visões, de decisões prepotentes e ainda, na maioria dos casos, de uma permanente postura de passividade.

Humans não nos traz nada que não saibamos, e é isso que nos inquieta. Mais do que qualquer palavra dita existe a força do olhar de quem testemunha, e de quem ouve e partilha; e é nesse olhar que tudo se revela. Um jogo simples e bonito que nos ilude a esperança de que o mundo se ouve a si mesmo.

Mas em que pontos tudo isto nos toca pessoalmente? Toca-nos, verdadeiramente? Há questões tão inquietantes e que nos baralham como a compra da roupa que vestimos. Conhecemos agora os rostos de quem trabalha numa fábrica têxtil no Bangladesh. Sabemos que contribuímos para a prática de uma exploração humana contínua e sem fim à vista, onde apenas lucram um ou dois investidores. Mas como viveriam essas mesmas pessoas se nem esse trabalho tivessem? Devemos ou não comprar roupa proveniente desses países? Estamos a ajudar ou a prejudicar? A resposta é simples e assustadora. Inventou-se um mundo de falsas necessidades, e aqui todos somos responsáveis pelas escolhas que fazemos.

Se a principal finalidade de Humans é conduzir-nos à reflexão, está mais do que conseguido. Reflectir é já um pequeno passo para uma futura decisão, decisão essa que levará a um comportamento e assim por diante.

Quero recordar o testemunho de um plantador de folha de coca da Colômbia. Apesar de subjugado à pressão dos traficantes, ganhava muito dinheiro, embora acabasse por gastá-lo em bebida aos fins-de-semana e em coisas que não precisava. Um dia reflectiu, e decidiu dedicar-se à plantação de cacau. Ganha menos, mas vive livre e de consciência tranquila. É uma mensagem de esperança. E é assim que eu gosto de pensar na humanidade.

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publicado às 11:25

Zen e a Arte de Correr

por fernandodinis, em 22.11.16

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Se há dois anos atrás me dissessem que eu iria ser capaz de correr 10 Kms, treinar três vezes por semana, cinco, sete, dez quilómetros, eu não acreditaria. E só nesta expressão, eu não acreditaria, se revela a grande magia da Corrida. A capacidade de mudança existe dentro de nós, só há que procurá-la.

A minha constituição física sempre foi muito frágil, talvez porque os meus únicos exercícios físicos se resumissem a caminhar a uma biblioteca para requisitar livros ou ao treino de dedos do famigerado Hanon, nas aulas de piano. Mexer corpo, pernas e braços? Nunca! (Excluindo algumas fugas de quintais e janelas de rés-do-chão, se porventura algum pai das minhas colegas chegasse mais cedo do trabalho. Na verdade, posso ter sido o pioneiro do Parkour sem o saber).

Não fui à tropa. Era enfezado, magríssimo, e passei metade da minha existência a não poder dar sangue por não ter o peso mínimo exigido dos 50 Kgs. Comecei a fumar aos 17 anos e deixei aos 26. Recomecei a fumar aos 32 e deixei aos 37. Todo o meu historial de saúde física apontava para um desaire anunciado. Curiosamente, sempre disse para mim mesmo que gostaria de ter 40 anos e ser saudável. E não é que consegui? Hoje, sinto-me muito melhor do que quando tinha 20 anos! (Não é difícil, visto que nessa idade andava sempre de ressaca…)

Agora a sério. A corrida transforma-nos rapidamente. Dói, dói mesmo. O corpo queixa-se, e é necessária uma grande força de vontade. Ter alguém com quem treinar ajuda muito. Foi fundamental partilhar com a minha mulher a paixão que ela sente em correr. Hoje consigo entendê-la verdadeiramente, e neste domingo senti finalmente a excitação em participar numa prova.

A beleza da corrida, ao contrário do que muita gente pensa, não se trata de competir com outras pessoas. A competição existe, mas internamente. É quase Zen, é quase meditação. Se existe uma palavra que defina bem os primeiros tempos de correr é Humildade. Ser humilde e aceitar os nossos limites, respeitar o nosso corpo, ouvi-lo, conhecê-lo. Ter consciência de que vamos ter dores mas que também as iremos ultrapassar. A melhor característica que um atleta deve efectivamente ter é humildade.  

Depois vem o deslumbramento. A solidificação da nossa auto-confiança, a persistência, a capacidade de aceitar dias de treino maus, e finalmente, a constante auto-superação que nos inebria. A força e lições que retiramos da Corrida passam a ser aplicadas nas diversas vertentes da nossa vida. E essa é a maior transformação que pode existir, é o melhor que podemos fazer por nós mesmos.

Voltarei a escrever sobre esta inesperada metamorfose e dar-vos o melhor do Gustavo Santos que há em mim.

Na imagem ao alto, eu pelo quilómetro nove. O meu lugar? O meu tempo? O que importa isso se passei a meta a sorrir?

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publicado às 09:05

Dia Mundial do Pijama

por fernandodinis, em 21.11.16

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Lembro-me de ser pequeno e ter um pesadelo recorrente: estar em plena rua, rodeado de inúmeras pessoas, conhecidas ou não, vestido de pijama. Digo pesadelo porque, apesar de ter uns pijamas lindos, com variados motivos desde cometas a vacas muito leiteiras, a ideia de estar na rua com a roupa com que se dorme era tão absurda quanto, sei lá, ir a um funeral mascarado de Troll.
Desta forma, não foi de ânimo leve que ouvi o meu filho a dizer:
- Pai, na segunda-feira vou de pijama para a escola.
Ele tinha acabado de sair das aulas de natação e pensei de imediato: "Querem ver que trocaram o cloro com uma substância de efeitos duvidosos?"
- De pijama? - Gritei alarmado como se o miúdo me tivesse dito: “Tsssheiiia mano, altamente esse elefante rosa neón sentado no teu ombro!...”

E respondeu impiedosamente:

- Mas não sou só eu! Vamos todos de pijama para a escola!!

Aqui, juro-vos, fiquei para morrer. Porque o meu filho tem 9 anos e eu tive de esperar até aos 21 para conseguir entrar numa ramboia do género. É difícil convencer suecas, principalmente se forem irmãs. Enfim, adiante.

Assim que chegámos a casa, corri à internet para conhecer a génese desta epopeia que torna os nossos filhos ainda mais mandriões do que aquilo que já são. Então parece que se celebra o Dia Mundial do Pijama como forma de lembrar a instituição chamada de Família. Então, o que fazem os nossos filhos para se lembrarem que têm pai e mãe e outros meninos, infelizmente, não? Vão para a escola de pijama.

Ora bem, se a ideia é celebrar o conceito de família, bonito seria neste dia, os pais estarem dispensados dos seus trabalhos, com dispensa renumerada, e fazerem então companhia aos rebentos nos colégios e escolas. Participávamos nas aulas, fingíamos não saber a matéria (não ia ser difícil) e com sorte, sempre víamos como é a professora do 3º Ano B de pijama, já que até de roupa normal o trânsito para num raio de sete quilómetros.

Por mim, aderia imediatamente, mesmo que tivesse que ir à Throttleman comprar mais um fatinho do ó-ó com tubarões fluorescentes ou até mesmo e, novamente, as tão malfadadas vacas leiteiras.

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publicado às 09:43


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