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Operculicarya

por fernandodinis, em 23.12.16

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 © Fernando Dinis - All rights reserved

 

As polpas dos dedos auscultam a camada de musgo, dançam num leve roçagar até chegar à terra. Rego-a devagar, quase gota a gota, vendo a água escoar-se pelas inúmeras fissuras. Volto a regar. Há espanto por algo vivo que à primeira vista está sempre inerte. E esta dedicação emociona-me, tem a capacidade de apaziguar-me. De manhã, bem cedo, abro a janela para que os primeiros raios de sol façam revibrar as suas folhas envernizadas. Tento imaginar como seja a mecânica das raízes, o entrelaçado de línguas que se humedecem de água e a tragam até aos filamentos mais distantes, a seiva a distribuir vida por labirintos. Torno-me delicado, atencioso, ainda mais silencioso.

Depois todo eu imerso a conduzir, as estradas ainda molhadas, o nevoeiro na parte baixa da cidade em que as copas de inverno conseguem rasgar e se recortam no horizonte aproximado. O nome das árvores como um mantra: plátano, acácia, ulmeiro, bétula, freixo, jacarandá. Uma força encantatória embala-me sílaba a sílaba. A comoção do que existe para lá de nós, ou a emoção de nós pertencermos a algo mais profundo. Imagino a imensidão nuclear do corpo humano, o ar inspirado, pulmões, brônquios, bronquíolos, uma sucessão de caminhos intrincados mas profusamente sábios. Entendo o chamamento da terra, os nossos setenta por cento de água, o que seja secarmos com a idade, até cair. Um fruto frágil de flor que passou despercebida. E na expiração um pouco do passado que nos sai com alívio. É esse o mistério? O de nunca se olhar na direcção correcta?

Tenho uma árvore no parapeito da janela.

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publicado às 11:31

Desligar o Mundo de Nós

por fernandodinis, em 20.12.16

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Em tempos tive um professor de Ayurveda que afirmava prescindir de ver notícias. Era russo de nacionalidade e tinha passado por vários países, e diferentes realidades, a lecionar e a trabalhar em clínicas de saúde. Era daquelas pessoas que, por tantas vezes mudar, lhe seria indiferente saber se estava em Portugal, na Hungria ou na Índia. Interessava-lhe o Humano – e o Humano existe em qualquer parte do mundo -, o bem-estar do próximo mas, principalmente, o bem-estar de si mesmo. Por diversas vezes nos dizia que trocava os noticiários por séries de comédia. Era assumidamente desligado do mundo, mas profundamente conectado com o próximo. Dizia-nos com alguma frieza: «Posso mudar os males do planeta? Dificilmente. Posso ajudar quem me rodeia? Claro que sim. Para quê sujar a minha mente com problemas pelos quais nada posso fazer? É gastar energia desnecessariamente.» O que à primeira vista nos parecia uma posição insensível, escondia uma sabedoria e uma ferramenta importantes para os dias de hoje.

Quem ontem não se sentiu impotente ao constatar que um camião pode invadir uma avenida repleta de pessoas inocentes e atingi-las sem piedade? Quem não se inquietou e chocou com as imagens de uma pessoa a ser abatida a sangue-frio por um polícia (figura que na sua génese nos dará segurança), em plena transmissão televisiva?

Ontem ocorreu-me as palavras ríspidas do meu antigo professor, quase palavras de desdém por um mundo cada vez mais difícil de compreender e distante do que possamos nós fazer por ele. Escapa-nos das mãos esta realidade feroz e enlouquecida que nos perturba e nos magoa. Infelizmente, olhamos para a História e concluímos que tempos conturbados e violentos são algo que nunca faltou. A nossa pequenez individual é inconsequente a uma estrutura encadeada há centenas e centenas de anos. Há que confiar nos que realmente têm esse poder e esperar que decisões acertadas e corajosas nos tragam fases melhores, dias melhores, anos melhores.

Ontem senti-me como o meu professor, e desejei apenas esquecer-me do mundo, ver o Seinfeld desde a primeira temporada, desencorajar a mente de reflexões, reflexões repetidas infinitamente que em nada me apazigua. Ontem senti-me que desligar-me da realidade é uma resposta tão insensível e cobarde quanto acertada e libertadora.

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publicado às 11:16

Deixem Passar!

por fernandodinis, em 15.12.16

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Vamos lá esclarecer de uma vez por todas este assunto. Onde está o Código de Conduta no que concerne à utilização das casas-de-banho das nossas empresas? Sabem aquele mini corredor que nos conduz do open space às portas de acesso aos urinóis, às sanitas, aos lavatórios com espelhos? Esse corredor não é um corredor: é o limbo entre o paraíso e o inferno, ou o bardo da primeira fase de morte de um budista (como queiram, só não me falem nos jainas, que estes wc’s não dispõem de poliban e chuveiro).

Vários mecanismos precisam de ser oleados no que concerne a este corredor. Em linguagem empresarial, há que agilizar os fluxos de pessoas no vai e vem, no entra e sai, mas principalmente quando não se entra e nem se sai. Aqui sim, preside a grande lacuna, e só quem já sofreu na pele (ou na bexiga, ou no intestino), entende a minha consternação e o porquê de estupidamente estar a escrever sobre este assunto.

Com as mulheres estamos esclarecidos. Há um pudor latente na movimentação dos corpos, um sorriso de grande respeito e quase nenhuma palavra trocada. O corredor assume nesses momentos uma nave de igreja manuelina, silenciosa e apenas alumiada por uma luz rarefeita que trespassa vitrais poeirentos.

O grande problema é com os homens. Com os homens é uma selvajaria. Desde expressões «fax para tóquio?», «mudar água às azeitonas!», «cuidado com a cerâmica…», povoam os diálogos de quem se cruza e segue o seu caminho. Ouviram? Segue o seu caminho! É aqui que são precisas as leis. Apenas conheço uma, tacitamente utilizada, para o bem de todos: Nunca se cumprimenta com apertos de mão um colega com quem nos cruzemos no corredor do inferno.

Agora o crucial problema: Homens que saem da casa-de-banho, com um sorriso de orelha a orelha, aliviadinhos, e decidem conversar com quem quer entrar, e que, geralmente, vem com o rosto rubicundo, o andar afectado, e uma pressa latente em cada movimento. Isto não se faz, meus amigos. Será preciso ser tão insensível que não compreendam que quem quer entrar na casa-de-banho o deseja como se fosse a última coisa a fazer enquanto vivo? E por azar, apanha-se sempre aquele colega com quem partilhamos gostos musicais:

 - E o novo dos Metallica?

- Ainda não ouvi! (mesmo que o tivéssemos ouvido).

- Eh pá, está na onda do Master e do And Justice! Grandes introduções, muito instrumental, solos a gastar. Os gajos finalmente conseguiram e viste-os no Jimmy Fallon? Com os instrumentos da Chicco? Eh pá, mas ouve o disco, vale mesmo a pena e…

- Ok, vou ver se ouço.

E os que partilham o gosto pela corrida?

- Tens treinado?

- Nem por isso (é claro que treinamos, mas naquele momento só queremos desovar como um salmão ao atingir a nascente do rio!)

- Eh pá, tenho treinado a sério! Tempos de 4,40! As meias de compressão ajudam, mas também não ajudam assim tanto! Na meia-maratona experimentei os Boost, mas acho que sou muito pesado para aqueles ténis. Os Asics são feios, os gajos borrifam-se para o design, mas eles sabem o que fazem! Tenho passada de pronador, sabes? Os reforços laterais são essenciais! Foste à da EDP?

- Não, estive constipado! - E nós à espera, a tentar contornar o colega, a pessoa, o diabo!!

- E a São Silvestre? Essa não podes perder!

 - Sim, essa não perco!

E somos quase sempre rudes e impiedosos ao virar costas e entrar na casa-de-banho. Se for preciso, esse colega ainda pensa de nós:

- Bolas! Que parecia levar o fogo no cú!

Amigos, se já fizeram o vosso serviço, não sejam maçadores nesse mítico corredor. Até porque, na grande maioria das vezes, esse vosso colega que vai à rasquinha, senta-se ao vosso lado o dia inteiro. Mas aí já estão caladinhos, não é? A mostrarem-se muito compenetrados no vosso serviço, não é? Caladinhos para o chefe pensar que dão o máximo, não é? Cagões…

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publicado às 15:56

E para 2017?

por fernandodinis, em 12.12.16

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Todos os anos repito o mesmo desejo – em silêncio, mais ou menos entre e sétima e a oitava passa, para depois desembuchar com o primeiro espumante que apanhar pela frente – o de escrever um romance. Mais um romance. Já passaram quase dez anos do A Casa do Esquecimento, o meu livro de estreia, vencedor do Prémio Literário Fnac/Teorema. Desde então, quase todos os anos, esse é um dos meus desejos.

Depois de ter editado em Novembro o meu disco Arquivo, de piano solo, onde compilo algumas das minhas composições que andavam por aí dispersas, eis que me vejo com tempo para pensar num novo livro. Mas esta ideia persegue-me constantemente, e esperar pela passagem de ano para a tornar uma das resoluções é apenas mais uma tentativa de se tornar realmente imperativa.

A questão é que a minha ideia de Literatura mudou muito desde então. Num país onde existem cada vez mais escritores, há que repensar um pouco sobre a importância que uma obra nossa trará ou não a um mundo desvirtuado. Há sempre a honesta conduta de escrever sem a pretensão de editar, longe das ribaltas, do mediatismo, do carreirismo (onde quem não edita um livro por ano se arrisca a tornar-se ‘esquecido’). Não é – nem nunca foi – um mundo encantado.

Ainda assim, pela sétima ou oitava passa, e logo eu que odeio passas, esse desejo surge como um antigo fantasma. Talvez assim, aconteça em 2017, o início da tão protelada tarefa. Daqui a um ano falamos.

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publicado às 16:01

Fico Até Tarde Neste Mundo #13

por fernandodinis, em 07.12.16

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A luz da janela distante rompe a escuridão. Foram alguns quilómetros para aqui chegar, a noite a desenhar curvas, a música numa única frequência, quase apenas um som, sem início ou fim. Ouve-se o mar a bater na falésia laminada, preia-mar de vagas frias. A literatura encontra a sua razão em madrugadas como esta. É preciso das muitas horas suster algumas como uma fotografia. Um respirar fundo que prendemos ao comprimir o diafragma. E neste aparente hiato, um diálogo espera pelo mecanismo das nossas vozes.

- Dou conta do planalto em noites como esta. Os faróis denunciam-te para lá das primeiras escarpas. Depois é como se dançassem, indecisos nas curvas que fazes, e eu vejo-os aproximarem-se durante muito tempo, a tornarem-se vagarosamente mais contornados e insistentes. Só muito próximo então consigo discernir a forma do teu automóvel, e ter enfim a certeza.

Quero perguntar-te quantos carros contas tu enquanto me esperas. Se esta estrada é ocasional ao ponto de conseguires prever que sou eu a aproximar-me, e quão dura é a sensação de perca sempre que alguns faróis passam defronte da tua casa sem parar. Mas é como se o frio me congelasse os maxilares. Gostava de não recear o silêncio como tu, ou antes ter a coragem de ousar feri-lo nesta pequena sala virada ao mar.

- Mas isto só acontece nas noites em que sei que vens. A minha capacidade de espera está treinada, quase só me sobressalto quando tenho a certeza de que és tu. Durante o dia desço a falésia pelas íngremes escadas de madeira. Quando faz muito vento, os meus cabelos armam-se com a areia e a humidade das ondas fortes, e eu penso o quão horrível possa estar caso tu aparecesses sem avisar. Mas nunca apareces e eu sossego-me, deixando à minha passagem as marcas pela areia ainda húmida. É apenas isso que fica até à troca de marés.

Gostava de conseguir confessar-te a importância destas palavras do teu quotidiano, dos mais inofensivos objectos, dos cremes sobre o toucador, do espelho a diminuir com o passar dos tempos, manchado de ferrugem nas extremidades, de algumas flores do campo a secarem na jarra da entrada. E como a presença do meu corpo na tua casa me causa sempre estranheza. Algo dubiamente me atrai como me impele a fugir. Agarro-me com força ao que me dizes, é uma salvação que ainda me permite regressar, estes minutos em que volteio pelo espaço e escuto a tua voz sussurrada. Certas noites pareço ser enorme, ou que a casa seja ainda mais exígua, sou medroso a escolher o lado do sofá, o lado da cama, a cadeira da cozinha, a espreguiçadeira do terraço.

- Entras em mim como se te quisesses anular, como se desejasses desvanecer a tua presença dentro do meu corpo. Recebo-te quase com afecto perante tanto susto. E a força com que fechas os olhos quando me beijas. Não digas. Não precisas. A tua cabeça é uma nuvem cuja sombra cobre uma grande área. Se me chove em cima, talvez seja por acidente. Eu conheço-te. Não te peço mais do que isto.

E vejo repetir-se o episódio do medo, uma segunda casa a que poderia chamar de solidão. E a imagem da janela acesa ao longe, estremecendo no retrovisor, e fico sem saber se é a noite que a apaga numa curva apertada ou se és mesmo tu que te deitas, e num movimento lento desligas o candeeiro junto à cama.

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publicado às 15:51

À Espera de Outro Mundo

por fernandodinis, em 05.12.16

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E se um dia a nossa forma de ver o mundo deixar de ser hipócrita? Degelo, incêndios, terramotos, subida do nível da água, seca extrema, fome, violência, guerra, religiões fanáticas, doença, raptos, violações, tráfico de droga, de orgãos, de pessoas, crianças sequestradas, discriminação, ódio entre povos, ataques nucleares, refugiados, assassinos, assassinatos, pessoas que fogem da guerra, pessoas que fogem da guerra mas que morrem afogadas, pessoas que fogem da guerra para iniciar novas guerras, monges budistas a imolarem-se pelo fogo, acidentes de viação, violência doméstica, violência psicológica, ditaduras, crimes cibernéticos, terrorismo, homens-bomba, mulheres-bomba, crianças armadas numa escola, poluição, aquecimento global, exploração económica, analfabetismo, pedofilia, prostituição infantil, abuso de poder, peculato, racismo.

Como funciona a nossa vida ao passarmos ao lado de tudo isto? Quão ardilosa é a nossa inteligência para que a realidade não nos afecte ao ponto de prosseguirmos na normalidade das nossas vidas? E o que seremos a mais do que outro ser humano para que tenhamos o privilégio de viver a vida que as sociedades inventaram para nós, quando noutros pontos não muito distantes não existe sequer a mínima dignidade humana?

Todas estas questões são colocadas de forma dissimulada, subliminarmente, no novo romance de Don Delillo. O famoso Zero K, nem sequer corresponde à sigla militar Zero Killed, mas sim ao grau zero na escala Kelvin, 270 graus Celsius negativos, utilizados na criopreservação de corpos. A criogenia como esperança de se regressar quando a ciência tiver respostas para as doenças que hoje nos abate. Ou a criogenia como possibilidade de suicídio, a morte antecipada, porque a realidade de hoje é insuportável? Confundem-se os conceitos, ou estão tão claros que os desejamos afinal dúbios? Um homem milionário que mostra ao seu filho a possibilidade de fuga de um quotidiano fingido e oco de sentido. E o que mais precioso podemos deixar aos nossos filhos do que a esperança de vida num mundo posterior que não seja este? Haverá algo de mais legítimo do que querermos proteger os nossos filhos? Quanto vale perante estas permissas todo o infindável dinheiro de um milionário? Mas nada disto está à mostra. A escrita directa e acutilante dissimula o essencial, contrapondo leitura e entendimento. Um desafio inteligente ao leitor, e conclusões exigentes a qualquer ser humano. Enquanto isso o mundo rola sobre si mesmo, e apesar de conhecermos o fim que nos espera, há esta capacidade de seguir em frente.

Fica a assinalável frase que se transcreve:

"Metade do mundo está a remodelar a cozinha, a outra metade está a morrer à fome."

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publicado às 09:32


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