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A desculturação do Silêncio

por fernandodinis, em 03.04.17

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Tinham-se apaixonado um pelo outro só Deus sabe porquê. Mas quando entraram em contacto directo mútuo (…) a companhia exibicionista e ruidosa dela fazia-o retrair-se num embaraço (…). E a minha simpatia ia sempre toda para o meu pai (…) pareço-me muito com ele, e nem um bocadinho com a minha mãe. Lembro-me de como, bem pequenina ainda, eu me encolhia toda ante a sua exuberância. Com o seu feitio, ela constituía uma permanente invasão da privacidade de cada um.

A Ilha, Aldous Huxley

 

Que força impele variadas pessoas serem assim? De onde provirá a energia que alimenta este exibicionismo constante? Não será apenas uma conduta que as fortalece socialmente? O que significa afinal o silêncio para todos nós e para estas pessoas em particular?

Todos teremos alguém conhecido com estas características: um parente que monopoliza o jantar de família, um amigo que só os seus problemas são significativos e urgentes, um colega de trabalho que ruidosamente tagarela, aparentemente imerso numa exaltação que não lhe permite ter o discernimento de que poderá incomodar o trabalho dos outros; ou ainda, que as suas piadas serão sempre bem aceites, pois se não fosse o seu humor, todos estariam sorumbáticos a trabalhar. Há em todos estes casos uma auto-promoção, uma assunção de que os seus discursos não só são válidos como necessários aos demais. São pessoas que requerem a atenção constante de quem os rodeia.

Num mundo electrizante, o silêncio tornou-se um dos bens mais preciosos dos tempos modernos. Mas como olhamos para este bem, se afinal tantas pessoas fogem dele? Existe uma errada aculturação do silêncio. Lembremo-nos dos locais onde ainda crianças nos pediam silêncio: na missa porque deus ouve, nos cemitérios para não incomodar os mortos, na escola para não ficarmos de castigo, em casa a brincar porque o pai lê o jornal e depois ralha. O silêncio sempre nos foi pedido em forma de obrigação e sob pena de um castigo, de maior ou menor consequência.

Seguindo o excerto de Huxley “com o seu feitio, ela constituía uma permanente invasão da privacidade de cada um”, há algo mais forte do que incomodar os outros devido a uma visão errada do silêncio. Estas pessoas sentem monotonia quando deveriam sentir tranquilidade, sentem vazio (e este vazio ameaça-as) em vez de completude. Existem portanto más recordações do silêncio para que exista a necessidade constante de o desvirtuar e evitar.

O homem social é ginasticado para ter uma conversa fluente. Um vendedor vende mais se falar com eloquência. Um locutor de televisão é exímio quando consegue improvisar palavras para se atingir a hora certa do bloco de publicidade. Não importa afinal a mensagem propriamente dita, é sim imperioso que os silêncios não ocorram. Congratula-se a pessoa que esteve a fazer conversa como uma pessoa simpática, e castiga-se o silencioso que parece estar sempre a observar os outros como carrancudo. Voltando à infância, recordem-se do famoso “Estás tão caladinho, só podes estar a tramar alguma!”

A grande dificuldade em muitas pessoas meditarem é, logo à partida, o não aceitarem o ruido que o silêncio tem. Não se trata de contradição. Quando se medita - a máxima procura consciente do silêncio - a nossa concentração foge facilmente da respiração para o fugaz desenrolar de pensamentos, tantos, que se torna difícil abstrair-nos deles. É como se, portanto, eles gritassem ao ponto de perturbar a nossa meditação. E não serão estes pensamentos a escondida razão para que muitas pessoas não consigam meditar? Para que, finalmente, fujam do silêncio que os despoleta, evitando um confronto entre as vozes do interior (involuntária) e do exterior (deliberada/forçada)?  

Ainda que para muitos o silêncio seja tristeza e melancolia, para outros será alívio e bem-estar. É tempo de interiorizar uma nova importância ao silêncio e elevá-lo a uma condição indispensável à quietude prazerosa.

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publicado às 11:24


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