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À Espera de Outro Mundo

por fernandodinis, em 05.12.16

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E se um dia a nossa forma de ver o mundo deixar de ser hipócrita? Degelo, incêndios, terramotos, subida do nível da água, seca extrema, fome, violência, guerra, religiões fanáticas, doença, raptos, violações, tráfico de droga, de orgãos, de pessoas, crianças sequestradas, discriminação, ódio entre povos, ataques nucleares, refugiados, assassinos, assassinatos, pessoas que fogem da guerra, pessoas que fogem da guerra mas que morrem afogadas, pessoas que fogem da guerra para iniciar novas guerras, monges budistas a imolarem-se pelo fogo, acidentes de viação, violência doméstica, violência psicológica, ditaduras, crimes cibernéticos, terrorismo, homens-bomba, mulheres-bomba, crianças armadas numa escola, poluição, aquecimento global, exploração económica, analfabetismo, pedofilia, prostituição infantil, abuso de poder, peculato, racismo.

Como funciona a nossa vida ao passarmos ao lado de tudo isto? Quão ardilosa é a nossa inteligência para que a realidade não nos afecte ao ponto de prosseguirmos na normalidade das nossas vidas? E o que seremos a mais do que outro ser humano para que tenhamos o privilégio de viver a vida que as sociedades inventaram para nós, quando noutros pontos não muito distantes não existe sequer a mínima dignidade humana?

Todas estas questões são colocadas de forma dissimulada, subliminarmente, no novo romance de Don Delillo. O famoso Zero K, nem sequer corresponde à sigla militar Zero Killed, mas sim ao grau zero na escala Kelvin, 270 graus Celsius negativos, utilizados na criopreservação de corpos. A criogenia como esperança de se regressar quando a ciência tiver respostas para as doenças que hoje nos abate. Ou a criogenia como possibilidade de suicídio, a morte antecipada, porque a realidade de hoje é insuportável? Confundem-se os conceitos, ou estão tão claros que os desejamos afinal dúbios? Um homem milionário que mostra ao seu filho a possibilidade de fuga de um quotidiano fingido e oco de sentido. E o que mais precioso podemos deixar aos nossos filhos do que a esperança de vida num mundo posterior que não seja este? Haverá algo de mais legítimo do que querermos proteger os nossos filhos? Quanto vale perante estas permissas todo o infindável dinheiro de um milionário? Mas nada disto está à mostra. A escrita directa e acutilante dissimula o essencial, contrapondo leitura e entendimento. Um desafio inteligente ao leitor, e conclusões exigentes a qualquer ser humano. Enquanto isso o mundo rola sobre si mesmo, e apesar de conhecermos o fim que nos espera, há esta capacidade de seguir em frente.

Fica a assinalável frase que se transcreve:

"Metade do mundo está a remodelar a cozinha, a outra metade está a morrer à fome."

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publicado às 09:32



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