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A Yoguini no Metro

por fernandodinis, em 13.11.15

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Entrou na estação do metro de Alfornelos. Trazia uma mochila enorme, robusta, com costuras reforçadas, e uma mão cheia de lixo. Com a outra, abriu a mochila e retirou um saco com fecho plástico onde depositou cascas de fruta. O meu instinto de fotógrafo apurou-se. De cabelo curto, muito escuro, mas já com alguns brancos, piercing no nariz, e as mãos ornamentadas com inúmeros anéis que encontramos nas feiras de artesanato. Depois retirou um termo metalizado, de onde bebeu com curtos goles. Imaginei estar a beber Chai, a famosa mistura de chá e leite com gengibre, forte, a fazer comichão na garganta. Arrumou o termo e retirou um livro de capa quadrada, de fotografia. Dezassete minutos depois, ao sairmos na estação do Marquês de Pombal, ela caminhando à minha frente, pude finalmente ler o título impresso na lombada, Sadhus. Mas antes disso, a minha viagem mental, ao observá-la, atento à sua roupa, levou-me a alguém fora da rotina. Um fino vestido cinzento que terminava acima dos joelhos, calças de algodão a servir de leggings e umas botas com desenho polar, a lembrar o calçado dos esquimós. Enquanto passava cada página do livro, durante os dezassete minutos de viagem em conjunto, deambulei por diversas conjecturas. Imaginei-a professora de yôga, praticante de meditação, budista, vegetariana, hinduísta, sabendo de cor os mudras e as respectivas posições de mãos, mestre reikiana, massagista ayurvédica; a caminho de um vipássana, dez dias de silêncio absoluto, rodeada de natureza, riachos companheiros e aves conversadoras ao sol de Novembro. Imaginei-a conhecedora da Índia, das grandes altitudes do Nepal e dos iaques do Tibete. Imaginei-a frequentadora das meditações activas de Osho, deixando-se tocar por estranhos, pernas, cabelos, seios, mãos, ao som de ritmos tribais, evocando o Kapha, a Terra e o animal que há em nós. É bom, diria qualquer escritor, quando alguém nos faz catapultar um jorro de palavras pela cabeça. Lembrei-me de um texto da Ana Cássia Rebelo, onde descreve encontrar amiúde uma malabarista nos semáforos de Entre-Campos, e na duração de um sinal vermelho, viajar com ela em inúmeras experiências. Hoje vivi o meu sinal vermelho, fui escritor pela linha azul. Quando por fim comprovo o livro de fotografias que levava, vira que a minha intuição acertara. Pensei que teria de escrever. Um texto-fotografia. Um clarão na mente. Uma foto que ela não encontrará nos corpos escanzelados e barrados de cinza dos sadhus, envoltos em fumos de tabaco rarefeito e de incensos com aromas indecifráveis.

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publicado às 11:54



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