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Apontamentos #11

por fernandodinis, em 10.11.14

Repara que no que pensas já visto é sempre algo de novo e nunca vivido, há sempre um detalhe, um som a gravar-se-nos, a iluminação fílmica, e tu prossegues com a consciência da novidade, a droga da mente, ludibriando a memória, a posição das mãos, a lista modorrenta de episódios que se distendem quando nos deitamos, como uma chuva miudinha, pingos assíncronos de uma torneira mal fechada

um labirinto de coisas, e coisas são tudo o que as mãos não ousam pegar, já pesam as palavras, os olhos a evitar, a permanente dança da fuga, ficamos exímios no jogo de pés, ou nos diálogos instrospectivos que chegam sempre ao silêncio, porque no silêncio quase tudo se perdoa, quase tudo se esquece e abafa, quase tudo morre

- Já morreste quantas vezes? Se te pensas sempre outro?

eu nenhuma vez, e muito embora a pele não me caia, o rosto igual ao espelho, sei que em mim um outro

- Muito nasces tu

tento evocar o labirinto, a infância não escolhida, os anos que se trocariam como camisolas suadas, calças rotas das quedas de bicicleta, há sempre tardes quentes, não infernos, antes a placidez de um não correr de horas, quase tudo parado numa sombra onde o corpo pareça mais leve

poucas praias, antes os pinheirais onde descalço a caruma a fingir-se perigosa, um pedaço de pedra na mão para quebrar um pinhão contra outra maior, o intenso odor a resina nos habituais copos pretos de plástico, que idade, que lonjura, esta distância de vidas a deixarem-nos com perguntas, para logo depois nos resumirmos ao silêncio, que tudo faz esquecer e abafar, e que mata

- Homens calados, segredos dobrados

e fico sem saber se isto alguma vez um provérbio, uma sentença algures ouvida e disparada, com que intenções, somos agredidos pela vida que julgamos sempre a mesma, e afinal sempre tudo diferente, um detalhe, a iluminação fílmica, o pingo de uma torneira a lembrar metrónomos

(lembro-me duma madrugada ver um bêbado a cair no meio da estrada, encostei o carro e corri para ele, debrucei-me, chamei ambulâncias, ligaram-me de volta, é só para confirmar que não é brincadeira entende, a estas horas, e eu a perguntar, puxo-o para o passeio?, não lhe mexa, não lhe mexa, e eu já não enfermeiro, antes triângulo de aviso de perigo, polícia sinaleiro, o corpo no chão, os olhares de dentro dos carros a pensarem, matou-o, e por fim a ambulância, e eles a rirem quando o viram, outra vez o mesmo, não tem onde viver, apanha estas de caixão à cova e faz dos hospitais hotéis, e eu meio desligado a acenar com a cabeça, a sentir um profundo desalento pelo que será viver assim)

diria por fim um cansaço, cidades cuja fealdade nos atinge com tanta violência que apenas silêncio como resposta, janelas e varandas e pátios e quintais e hortos cansados, calçadas informes onde topamos nas pedras, nomes de ruas que nunca saberemos, apesar de todo o cheiro decorado

- Pensas-te sempre outro, é isso?

e digo trinta e oito e sei que me engano, que de idades estamos ainda mais enganados que das poucas certezas julgamos ser donos.

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publicado às 11:39



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