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Apontamentos #13

por fernandodinis, em 25.11.14

Não existe aproximação de inverno que não me remeta às memórias da Praia Azul. O vento frio e permanente não deixando respirar, dificultando o caminhar pelas dunas, e o estrondo do mar, um coro impossível de reproduzir, nem com cem mil homens a gritar a uma só voz. (isto imaginando as vozes de cem mil homens, passamos a vida a supor, e pior que isso, a imaginar coisas sempre impossíveis como irreais). Não chovia, mas tenho em crer que o vento levantava a espuma das ondas antes de estas morrerem na areia, e por fim talvez algo que se parecesse com chuva, visto que os cabelos ainda compridos a ficarem revoltos. Alguém me fotografa a caminhar numa dessas dunas, tanta areia como o grão do filme a preto e branco, e eu gozando de exotismo romântico, uma tentativa de estética numa vida ainda imberbe, onde conseguia já imaginar-me tão literário como cansado e resignado deste mundo um tanto desajustado, feio mesmo, de se viver. Só assim é possível explicar certas urgências. Nunca o medo de morrer, antes a certeza de se atingir o máximo dia após dia. Não interessa a direcção. Ou não interessava, visto que eu hoje tão diferente. O romantismo enfraquece se se perde a capacidade de dramatizar. Acontece-me a fortuna de sorrir e dar-me ao luxo de um dia ser apenas um dia. Amanhã outro. Aqui ou na eternidade. Se me tornei zen? Se substituí as ruas escuras das madrugadas pelas charnecas silenciosas? O que significa tudo isso se o mundo o mesmo: a mesma violência, a mesma injustiça, o eterno desfile de egos, tanto apego, tanto engano, tanta cegueira. Como recriminar quem levante voo de pontes? De escarpas? De quem adormeça para sempre volatizando-se em cápsulas? Não será tudo isto um sofrimento? (É um sofrimento, não o digo como budista, mas porque o vivo). E ficamos sem saber se hoje melhores dias que ontem, naquela Praia Azul tão ventosa e fria que os cabelos desalinhados e húmidos me dificultavam o andar pelas dunas. Os meus pés enterrando-se vários dedos, os cigarros a fumarem-se sozinhos pelo vento, nem fumo faziam, as ondas sim, a espuma levantando um nevoeiro localizado, uma cortina intransponível. E de volta com estas imagens transmutando-as em palavras na esperança de um dia se tornarem os papéis inesperados de uma qualquer gaveta; que um dia meio distraído me console quando a memória se tornar uma cabeça rareada de cabelo. Findou-se o romantismo negro dos princípios dos noventa, onde ainda se vislumbrava um brilho magnético nos olhos dos artistas, dos que se diziam e daqueles que não eram capazes de viver de outro modo. Mas havia lugar para tudo, porque as praias nos invernos eram espaçosas, tendo em conta os nossos passos difíceis pelas dunas de regresso aos carros, abandonados junto ao bar de madeira fechado. Havia tanto silêncio em nós perante o grito constante daquele mar medonho, cinzento claro, que visitávamos aquela praia como quem entra numa catedral, com o temor próprio da nossa pequenez.  Mas era assim que se vivia, enganando o mitigar de caminhos cada vez mais inacessíveis e inexistentes.

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publicado às 15:45



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