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Apontamentos #15

por fernandodinis, em 13.01.15

Escrever ainda tem os seus lados positivos. Por exemplo, posso estender este texto até ao infinito sem que aborde algum assunto em concreto. Um novelo de palavras que entretecidas adornam uma mancha de cor negra sem com isso transmitir qualquer mensagem. Posso falar dos pensamentos sem que neles me exponha. Por se tratar de imagens que vagueiam pela mente sem fio condutor. Ou das sensações que temos quando se come algo doce ou amargo, mas sem as descrever, e deixar em aberto, tudo vago, sem precisão. Escrever pode ainda ser e somente apenas um exercício. Como por exemplo escrever frases longas sem pontuação onde é difícil encontrar os locais correctos em que devemos respirar ou pausar na sucessiva engrenagem de ideias do que lemos e apreendemos embora totalmente conduzidos por aquele que escreve as frases longas como esta que geralmente se tornam perigosas porque nem sempre se consegue um alinhamento perfeito e coerente do que se pretende transmitir se for essa a intenção. Também, na verdade, há aquelas em que, vírgula a vírgula, nos obrigam a parar muito, quase demasiado, um exagero para quem lê. Podemos fazer algo ritmado. Coisa do género. Corpo. Sorvo. Silêncio. Águas. Frio. E neste ritmo transportar o leitor a outro espaço distinto. Exemplo. O escritor escreve e o leitor lê Céu, verde, nevoeiro, musgo, riacho. E logo o leitor em processo de semiótica se revê numa experiência vivida por si no cume de uma serra. Posso dizer areia e sal e coco. E da serra passa a existir uma toalha estendida numa tarde de verão. Para quem ainda me segue, o importante é entender que este texto é apenas uma mancha de palavras em que num jogo vou escrevendo sem quase nada dizer de mim. Poderia fazê-lo usando uma ficção com personagens distintas, em situações remotas, e dessa forma, através de diálogos absurdos como:

- O dia clareia.

- Dormimos amanhã.

- Café?

- Escura e forte.

- Café é masculino…

- … eu ainda falava da noite.

- Estás cansado.

- Sim. Dormimos amanhã.

E assim prosseguir na teia de amarrar o leitor a algo sem matéria. Mas não esquecer de agradar a todos os leitores e, por isso, torna-se forçoso que se introduza um pensamento profundo, uma frase batida que fique a reverberar durante muito tempo. Mas mesmo dizendo algo como: «Grita tanto este silêncio que nos aproxima», não transgrido na minha intenção de não me denunciar. A escrita tem destes confortos. Pode tornar-se uma arma e igualmente uma melopeia inócua, sem causar ferida. Desta forma está escrita uma página A4 sem nada vos dizer. Quem chegou até aqui, leia-se, lendo esta mancha de palavras até este local exacto, partilhou comigo algo mais do que nada ler ou sentir. E mesmo escrevendo, em silêncio estive. E nesse vosso silêncio conseguiram dizer-me tanto. Valeu a pena.

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publicado às 17:51


4 comentários

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De Vasco a 15.01.2015 às 21:35

Excelente!!!
Obrigado por este magnífico momento de escrita e leitura, suave e doce, de difícil elaboração, pois poucos são aqueles que assim o conseguem.
Merecido destaque no "recortes" do Sapo Blogues!
Abraço.
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De fernandodinis a 15.01.2015 às 21:42

Obrigado Paulo Vasco
Seja sempre bem-vindo.
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De Vasco a 15.01.2015 às 21:51

Não tem que agradecer. O prazer é todo meu!
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De asimplesvidadejoaorapaz a 15.01.2015 às 22:51

Você "apenas" desmontou a "minha" escrita... agora percebo melhor porque umas vezes escrevo de uma forma outras de outra... mas feliz ou infelizmente, de forma inócua ou não, vai sempre um bocadinho muito de nós...

Valeu a pena!!

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