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Como se as mãos já carregassem algumas das cinzas que será o meu corpo. Não pode existir outra frontalidade perante a morte do que viver com a sensação de perda. A vida entra no declínio sempre que contamos e se chega ao valor negativo de tudo o que poderíamos ter sido. Um dia acorda-se e exclama-se «Estou velho». Ruas escuras, nomes ressoando, músicas antigas, tantas músicas antigas capazes de habitar poemas, flores afinal que vão perdendo a verticalidade. E assim o corpo, nunca o desejo, visto o desejo ser algo antes da matéria; não apenas uma ideia, uma vontade. Imaginar o desejo como a água de uma planta já cansada. Ele existe, o corpo existe, e tudo falha. Mas falo de aves, que enveredam por longas viagens. Faltar-nos-á esse incómodo, o desconforto de não ter ao que chamar de casa. Acredito que a habilidade seria maior, e a resistência, e que durante muitos anos as músicas antigas perdurassem como uma consoladora novidade, um resquício de brilho, algo parecido a um sorrir. Não os lábios, apenas aquele pequeno incêndio dos olhos, suficiente, oculto, mas inequívoco.

Como te dizer; a vida é uma separação total ao que chamamos de corpo. O que é um corpo senão a soma de partes? E separando as partes, ao que se chega? Portanto é simples que se entende que exista uma ideia de nós. Mesmo que morramos. Cai-se no lirismo de dizer que existimos sempre que habitamos na memória de alguém. É esse o laço a criar com a vida? Deixar utensílios que mais tarde despoletem a memória do que somos? É por aí que passa a escrita? A música? A fotografia? Que fácil se torna idealizar a imortalidade com a arte como ideia, como vontade, como a água fresca que revigora a planta, a pequena poça onde as aves vêm bicar.

 

* Título retirado de um poema de Al Berto.

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publicado às 10:38



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