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Apontamentos #3

por fernandodinis, em 30.09.14

Assinava as suas cartas apenas como Maria. Recebia uma por semana. Estava certo de que Maria seria um nome falso. Nelas descrevia pormenores concretos de que me conhecia muito bem. No envelope nunca constava o endereço do remetente. À medida que as cartas se sucediam na minha caixa do correio, a sua escrita tornava-se mais aberta, enriquecendo-se de detalhes, onde por vezes deixava escorregar propositadamente informações precisas que me levassem a descobrir a sua verdadeira identidade. Foi na altura que comecei a usar óculos, com dezassete anos. A referência de os colocar e a minha postura adquirir um semblante intelectual atípico para a minha idade, possibilitou a descoberta do grupo de pessoas das quais já desconfiava, estreitando assim o até então vasto leque de possibilidades. Isto porque só os usava quando sabia que ia ler durante algum tempo. Na altura, nem nas aulas os colocava; apenas nos ensaios de teatro onde batíamos texto várias horas seguidas. O grupo estava encontrado, restava descobrir quem seria Maria. Sentados num círculo, com as folhas da peça nas mãos, eu colocava os óculos e ia dizendo as minhas deixas sem grande entusiasmo, canalizando a minha energia em observar o rosto das várias actrizes que se pudessem denunciar num rubor de face, num sorriso irreprimível, num olhar demorado. Nada. Eu sabia que Maria estava ali mas nenhuma delas parecia de facto ser a Maria que me escrevia. Por vezes anotávamos nas margens do texto indicações de encenação e nessas alturas eu ávido de curiosidade, tentava encontrar uma caligrafia que se assemelhasse à das cartas que recebia, mas obviamente, conseguia olhar para quem se sentasse ao meu lado, mas nunca poderia ver a caligrafia de quem estaria à minha frente. Mesmo sabendo que ela estava ali, o jogo mantinha-se aceso, e em nenhum dos ensaios Maria se desmarcou e se denunciou. As cartas chegavam sistematicamente. Por vezes eram tão breves quanto uma simples frase. «A tua voz no monólogo enche-me, paralisa-me.» E nos ensaios dei por mim num esmero provocador; um actor detective a encontrar a criminosa num grupo de oito suspeitas. Seria a de cabelos louros encaracolados? A obesa? A magra de seios proeminentes? A mais velha do grupo, tão segura de si e com casamento anunciado? Não estava a ser fácil. Até que um dia o inesperado aconteceu. Recebi uma nova carta de Maria diferente de todas as outras. Tivera o cuidado de escolher um papel pardo, diferente das banais folhas brancas. Desenhara nele um mapa. O jogo estava finalmente aberto. A caça ao tesouro que eu enveredava como um pirata furioso, estava finalmente a chegar ao fim. O mapa era muito simples. Referia o dia e a hora num dos cantos superiores da folha e no meio desenhava-se os jardins da Gulbenkian onde Maria me esperaria, com setas precisas desde a entrada até ao recanto intricado onde me esperaria. Recordo-me de deter aquela folha nas minhas mãos durante vários minutos. Voltei a verificar a data e hora. Uma tarde de quarta-feira, às 16 em ponto. Para aqueles que me conhecem já saberão o que aconteceu. Eu não compareci. Agora era a minha vez de jogar e tornar presa o predador afoito que se contivera durante semanas seguidas a ocultar a sua identidade. Falhei o encontro, desconhecendo quanto tempo estivera Maria à minha espera no recanto da Gulbenkian. Trinta minutos? Uma hora? No Sábado seguinte, novamente nos ensaios, tentei verificar de que rosto transpareceria laivos de derrota, vergonha, fracasso, paixão exacerbada. Ninguém, nada. Que boa actriz seria. Perguntei-me a mim mesmo qual delas tinha mais talento. Sem dúvida a mais velha, com casamento prometido, um noivado que lhe media as atitudes e que a destoava da normal liberdade inerente ao jovens actores, sempre extrovertidos, humorados, ordinários, provocadores. Estava ali Maria. Sorri-lhe no fim do ensaio, ciente de que encontrara a minha arca perdida numa gruta remota de uma ilha desabitada e selvagem. Ela olhou-me e sorriu forçadamente, no desdém próprio de quem se sente traída, magoada. Nada me disse, nem uma única palavra. Segui-a por breves metros, de forma a afastar-me do grupo de pessoas conhecidas e chamei-a. «Maria, espera…» Ela parou, voltou-se, aguardou que eu a alcançasse, e tendo-me diante de si, sem dizer uma única palavra, levantou a mão direita e tocou todo o meu rosto, vagarosamente, desde o alto da testa até ao final do meu queixo. Uma carícia firme que parecia gritar coisas numa frequência que eu nesse momento inesperado não consegui assimilar. Depois deixou cair a mão de uma forma pesada, voltou-se e continuou a caminhar com a mesma cadência, como se nada tivesse acontecido. Nunca mais recebi outra carta.

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publicado às 11:31



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