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Apontamentos #4

por fernandodinis, em 01.10.14

Que coisa esta de nos dizerem que ‘escrevemos triste’, do mesmo modo que nos poderiam dizer que a selecção brasileira ‘joga bonito’? Se existe algo que a escrita ao longo deste anos me levou sempre a pensar é precisamente o oposto: não pensar. Escreve-se o que tem de ser escrito, da mesma forma que se batermos com o joelho na quina de um móvel, sofre-se o que se tem a sofrer. Não existe qualquer encenação. E se existe, entramos por campos duvidosos. Porventura existe o ‘tom’, como acontece na música, quando um vocalista encontra a forma de compor mais adequada à sua voz. Admito que isso aconteça, mas terá de ser genuíno; ou seja, não provocar. Provocar através da escrita é vestir um fato que não nos pertence, entrar no palco de teatro errado e dizer todas as falas incorrectas. Em poucos minutos a audiência desiste e levanta-se para sair. E fechar um livro é tão mais fácil. Defendo que a melhor forma para se escrever é ler muito. Não ter receio que os outros nos contaminem. Quantas vezes não se pega num livro e esse autor nos dá uma enorme vontade de escrever? Quantas vezes sentimos vontade em escrever? Não podemos desperdiçar qualquer hipótese de escrita, muito menos ponderar se aquilo que vamos encontrar no fim é ou não um texto ‘triste’. Somos basicamente fotógrafos de guerra, que a meio do um fogo cruzado e intenso, disparamos o maior número possível de fotografias. Se elas estão com boa exposição, bem enquadradas, se têm um conceito, se simplesmente estão focadas, todo esse trabalho e decisão serão feitos mais tarde, calmamente, e tem a ver com tudo menos com o acto de fotografar (principalmente nas condições em que se fotografou). Apresentar mais tarde estas ou aquelas fotografias é, em última instância, o pouco que pode fazer o escritor com os seus textos. Quantos músicos não descobriram o seu ‘tom’ a tocar músicas de outros autores de que gostavam muito? Mas não quero fugir ao tema inicial. Se escrevo coisas tristes? Escrevo o que tenho de escrever, ciente de que aquilo que escrevo pode não corresponder à pessoa que sou enquanto escreve, ou mais simplesmente, aquilo que escrevo pode até nem estar de acordo com aquilo que sinto. Se isto me preocupa? Nunca no momento de escrita. Se penso muito no que apresentar a público? Nada. Escrevi um romance com a ligeireza de querer escrever muito e acabei por ganhar um prémio e ver o livro editado. Se tivesse pensado, poderia ainda estar na gaveta. Por outro lado, não foi o facto de ser premiado que me levou a escrever desenfreadamente como se não soubesse fazer outra coisa na minha vida. Aí sim, estaria a escolher as roupas erradas, a entrar nos palcos errados, a dizer as falas erradas. Se escrevo triste? É possível. Leiam-me nos dias de chuva.

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publicado às 09:06



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