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Apontamentos #5

por fernandodinis, em 10.10.14

Desvenda-se o segredo. Normalmente há sempre o silêncio incómodo da noite, uma pressão atmosférica típica dos momentos de tensão, do sobressalto, do medo. Mas eis que surge a revelação da escrita; cinzelada arduamente. Não querer dizer e dar a volta. Voltar ao mesmo e passar ao lado. Um salto mortal. Qualquer acrobacia, dissimulação, finta ou contragolpe servirá para nos proteger. Há palavras mortais, ou assim as julgamos. Palavras que não apenas significados impressos, símbolos. Palavras já ramificadas, com vida própria, apêndices. São essas as palavras que invadem os corredores escuros. As que martelam incessantes os longos segundos do martírio das insónias.

O que resta senão escrever, mesmo que isso doa como um acto de autoflagelação? E não é difícil entender porque dói. Porque é viva a matéria informe, da qual nos tentamos clivar dia sobre dia. E é como nos sonhos em que tentamos fugir e as pernas parecem presas e sempre no mesmo lugar. Um sol que roda nas últimas horas da tarde e a luz que invade os objectos da sala a permanecer igual. Como se aqui dentro uma fotografia. Uma fotografia de aromas, de nomes, de gestos. O que resta senão viver em diferido? Carregar na ferida antiga e ter a certeza de saber que somos quem estamos aqui.

Quantos poemas escritos afinal na pele? Ou no cansaço de quem já não se olha ao espelho? Há ainda o gesto, esse dançarino, o último resistente da procura. Dedos a timbrar no vazio halos invisíveis, mas ainda assim presenças, e enquanto presenças, menos medo da solidão. Porque há noites em que somos os vales distantes, camas indefesas onde o nevoeiro se distende e nos vamos gelando, sem ousar mexer o que seja. Gavetas com cartas. Cheiros que se derramam na memória, frascos perfumados que se partem junto do córtex, e tudo se volta a agitar quando somente o silêncio seria suposto, porque… que horas são? Quatro? Todo este silêncio errado à hora certa, porque todas as sombras parecem gritos. E eu já sem forças para me mover, e emergir uma mão que seja deste nevoeiro. Uma palavra dócil que te faça voltar a adormecer, explicar-te que me apeteceu escrever, e que por vezes é como querer chorar sem conseguir. O rosto seco, os olhos secos, mas a garganta a doer de tanta comoção. Dorme amor, que ainda restam algumas horas de palavras violentas, tão cortantes, tão cinzeladas com fúria. Se escrevo no escuro? Sim, escrevo sim. Apagas a luzes que as madrugadas são como as últimas horas da tarde. O sol de ouro velho a filtrar as imagens, a trazer tardes cálidas em doses memoráveis, longínquas, mas tão próximas, tão cheias, tão matéria.

E toco-as, mesmo no escuro, nos gestos improvisados, na dança eufórica. É assim que escrevo. Deita-te amor. Poemas assim só se lêem na dor, e eu quero-te sempre criança deste conhecer.

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publicado às 14:38



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