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Apontamentos #6

por fernandodinis, em 17.10.14

Não me fodam.

Um gajo entra numa livraria e o que encontra? Uma selva. Uma selva de merda. Uma latrina. Uma pocilga. Um esterco a que todos chamamos de literatura. As livrarias são uma passerelle. Uma carpete vermelha de vedetas, estrelas, astros, deuses, misóginos, panascas, filhos-da-mamã. Mas de merda. O escritor que decide ser escritor e se enche de dinheiro como uma prostituta de serviços limpinhos, discretos e imunes a doenças. É isso que me fode o juízo. Tudo tão cintilante, tudo tão previsível, e os números a subir de livro para livro. E eu penso nos gajos que decidem escrever por dinheiro e fico com a pele fodida, os nervos em frangalhos, perco o tesão, apetece-me matar.

 

De onde surgiu esta escumalha? Quando começaram os editores a olhar para os livros como produtos? Não me fodam. Pérolas a porcos. Tudinho a mesma corja. Escritores-jornalistas, escritores-políticos, escritores-videntes-de-auras-sempre-prontos-na-auto-ajuda, escritores-compulsivos (porque foda-se, há livros de um único autor que são plágios dele mesmo), escritores-putas, escritores-cozinheiros, escritores-para-os-meninos-com-hiperactividade, escritores-para-os-escritores. Escritores o caralho!

Há que chegar ao fim desta selva, mas não lhe encontro o caminho. E sinto-me impotente. E ser impotente é meio caminho andado para escrever um best-seller; porque hoje, se um tipo-tipo se descuida, escreve um best-seller e torna-se tipo-escritor. Pior ainda, escritor-tipo. O tal. O que por todos esperavam. The next big thing. Oh foda-se, isto mata-me e eu queria era borrifar-me, sabem? Cagar literalmente sobre esses livros todos e ser feliz com as minhas palavras. Quando descubro que é impossível.

O escritor-cabrão-que-investiga-factos-históricos-e-as-pessoas-chupam-aquilo-tudo-só-porque-tem-um-fundo-verídico são os piores. Não são um homem nas suas águas furtadas de Paris a dactilografar numa máquina antiga as dores precisas do coração. São uma empresa, com CEO, directores, assessores, secretárias, marketeers e mais um pavilhão minado de chineses mal pagos a trabalhar dezoito horas por dia. É assim que os imagino. Os cães. Feitos tontos quando a caça é muita. “Mas este dinheiro é da sétima edição do terceiro romance, ou da terceira edição do sétimo romance?” E depois de fungarem, piscarem os olhos para o extracto bancário - que dias aborrecidos serão esses - perguntam por fim “Mas estas edições são afinal de que país”?

Sim, porque quando se faz merda da grossa, mais de quatrocentas páginas cada cagalhão, o nosso país é pequeno. Entram os agentes (faltavam-me estes filhos-da-puta), a venderem direitos de tradução aos amigos europeus. E depois estes, porque somos uns pedintes merdosos, chegam às américas, e através deles ao mundo inteiro. Uma sanita de livros, este planeta, sem autoclismo à vista, uma calamidade.

Por último, fazem filmes destes livros, o que torna a sua proliferação como uma praga incontrolável. Desde esse momento, o livro ou se anula (o cenário mais delicioso) ou se consagra para sempre. E este para sempre é quase sempre o que acontece. Ou seja; uma cagadela que pode simplesmente começar com uma bufa sibilina, pode tornar-se na maior diarreia mundial e conspurcar todos os poros susceptíveis de dar dinheiro.

Não me fodam. Isto não se faz.

O problema não é acontecerem fenómenos destes todos os dias.

O problema é não me acontecerem a mim.

 

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publicado às 09:28


5 comentários

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De KEKEMANTEIGA a 17.10.2014 às 11:29

espera pelo meio-dia... pode ser que a indignação se acentue.....
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De fernandodinis a 17.10.2014 às 11:36

Fazer parte da máquina. Sempre a máquina. Eu também já fiz parte da máquina, mas sem a parte do dinheiro, que, diga-se, é uma merda.

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