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Apontamentos #7

por fernandodinis, em 20.10.14

O que é descer em nós mesmos se não um voltar para dentro? Ou até fazer do avesso a nossa parte visível, mas apenas aos nossos olhos? Reformulando: se trouxer muito do meu interior para fora, torno-me invisível, pois só os meus olhos se tornam capazes de me verem. O quão importante se torna nos dias de hoje olharmo-nos a nós mesmos? E se o fizermos, teremos as ferramentas necessárias para chegar à visão da nossa génese, da primeva essência? À primeira vista, são tantos os caminhos prováveis e tantas as perguntas e respostas possíveis, que nos deparamos com uma montanha muito alta de conhecimento que é preciso escalar. E não será isto viver?

Na poesia existe o lugar-comum de se olhar para dentro. A certeza de que as palavras escritas só poderão ser compreendidas pela nossa mente (capaz de sentir) e em última instância lida pelos nossos próprios olhos. É como assumir que o que escrevemos e sentimos é tão pessoal e intrínseco à nossa pessoa, que se torna uma mensagem ilegível para quem nos tente ler e compreender. Esta convicção, chamemos-lhe assim, de que alguém para além de nós é incapaz de entender o nosso sentir, colide com a assunção evocada por Novalis.

Toda a descida em nós

Mesmos é simultaneamente

Uma ascensão, uma assumpção,

Uma vista do verdadeiro exterior.

Nesse instante, que se crê introspetivo e em pleno meditativo, existe o posicionamento da nossa pessoa num lugar externo, que nos permite olhar para nós mesmos como se fossemos um outro alguém. Contudo, esta transferência ocorre, obviamente, num estado intelectual.

Indo mais além, por que razão não aproveitar esta ferramenta como uma auto-observação de quem somos, dos atos que cometemos, da forma que reagimos face ao quotidiano e principalmente perante o desconhecido? Não me parece descabido que este transe poético não se coadune com a transparente visão que se alcança em períodos de meditação; onde nos é concedida (porque a procuramos) a visão de quem somos e de quem poderemos ser.

 

O que parece tratar-se de uma tarefa simples, assim o não é. Se o fosse, Novalis não a teria escrito, os poetas não se cansariam em escavar as suas memórias, qualquer variante de meditação seria prolixa. Se esta procura acontece, é porque dela pouco se sabe (portanto, de nós mesmos), e porque quando finalmente atingida nos proporciona uma clarividência que raramente possuímos da nossa pessoa enquanto parte de um todo. É isso que procuramos, é nisso que trabalhamos.

Mas como pode parecer o óbvio assim tão difícil de concretizar? As sociedades atuais cada vez mais estereotipadas têm o poder assustador de nos mascarar. O consumismo passou da necessidade básica para uma luta de status social cujas fasquias parecem estar sempre a elevarem-se. No budismo e hinduísmo, este consumismo é apelidado por apego, e não por necessidade. Ou seja, sempre algo que nos é oferecido, mas pelo qual temos o livre arbítrio de escolha. Consumir ou não consumir. Não é preciso ser-se oriental para entender isto. A ciência e desenvolvimento tecnológico trouxe-nos coisas boas mas também outras tantas más. Vejamos a rapidez com que o ser humano, antes dedicado ao pensamento, à arte, ao conhecimento, à própria política ou filosofia, se transformou hoje em alguém indistinto, sem individualidade assumida e refém de uma economia de consumo. Vinte anos são suficientes para se fazer uma comparação diacrónica. (Nunca a sociologia possuiu tanta tarefa em mãos).

É urgente parar. É urgente questionar quem somos e quem temos sido nas sociedades ocidentais atuais. Temos ou não o controlo dos nossos hábitos e instintos básicos; ou será que a nossa forma de interagir já será inconscientemente manipulada? Se somos manipulados, de onde vem essa força exterior? Creio que a lacuna não passa por fazermos ou não parte de uma massa humana de uma economia de consumo. Julgo ser já tarde para questionarmos isso. Mas quanto mais manipulados somos, não deveríamos ao mesmo tempos indagar porque perdemos tão facilmente o controlo de quem somos?

Há um trabalho que há a ser feito de raiz. Compreender que não precisamos de nem metade das coisas que são inventadas e vendidas na nossa sociedade, e mais do que isso, nos afastamos da nossa essência humana, primária, per si autónoma, e dedicada ao desenvolvimento do conhecimento. E este trabalho ganha em transpor a sensação de segurança (efémera) que ganhamos ao comprar conforto, comodidade, tecnologia, na matéria que existe em nós e sempre pronta a ser trabalhada. Sou forte porque questiono. Sou forte porque exercito o meu corpo. Sou saudável porque me alimento equilibradamente. Sou inteligente porque leio e procuro conhecimento e amplifico-o na troca dele com os outros. Sou humano porque conheço e respeito o sofrimento humano constante. Sou sensível porque me emociono com a arte, com a estética. Sou completo porque amo e emocionalmente tranquilo porque não prevarico em infidelidade. Sinto paz porque não desejo mais do que preciso para me sentir vivo.

Novalis lança o desafio mais atual do que nunca. Olha para dentro e o que vês? Há em ti um indivíduo único e insubstituível, ou um pedaço de massa humana dos tempos modernos, condenada ao anonimato e à subserviência?

 

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publicado às 15:57



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