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Apontamentos #9

por fernandodinis, em 28.10.14

a dança das árvores perenes, ou talvez a teimosia das folhas nos invernos, que lição ano após ano que não atentamos, como atentar se os olhos sempre no chão, ou então no vazio de quem nada vê, o embuste dos olhos abertos

portanto nem sempre as ruas cinzentas, o verde acena-nos mas logo de seguida um céu carregado, e aí nada a fazer, é um peso imenso céus destes, onde os inventam, que nos curvam, nos moem e adiantam na idade

- Já em casa? Caíste da bicicleta outra vez?

eu a fingir-me desentendido, e à primeira oportunidade algodão molhado de água oxigenada, e a ferida a ferver, os olhos fechados, não os outros, estes mesmo cerrados de dor, que cacetada, se fosse apenas esta parte interna do joelho e não houvesse uma porta metida para dentro num dos carros da rua

- Diz lá o que se passou

e eu a ver televisão como se de repente a televisão a minha liberdade

- Arrumo-te a bicicleta de vez

como explicar a dança das árvores perenes, ou as folhas molhadas a olearem as calçadas, é domingo de manhã e eu na missa acólito, genuflexão ao ritmo do padre, que lavava as mãos minutos infinitos antes da cerimónia, lembro-me bem demais, o sabonete dançando entre as palmas das mãos e uma espuma já branquíssima a resultar de nenhum sujo, mas ainda assim, é o corpo do senhor

- É o corpo do senhor que as minhas mãos tocam

o que dizer dessas mãos que tanta lavagem precisam, ou somente uma paranoia dele, e eu aqui com coisas, deixa-me mãe, arde-me o joelho, não me ajeitei com o penso à pressa, e agora a ferida na ganga das calças, a televisão a não ajudar

- Está decidido, acabou-se a bicicleta

quando ainda hora antes o meu joelho direito no altar, sincronizado com o do prior, senhor prior, tocando a alcatifa vermelha, curioso como também o carro vermelho, uma porta amolgada, terá sido a quina do passeio, o pneu ressequido numa folha das árvores perenes

- São memórias que escorregam, mãe

e a minha mãe

- Ainda és novo para essas coisas

e lá se decidia a não trancar de vez a bicicleta, eu que aprendesse a pulso o que são os domingos de manhã, altas velocidades, os sinos, a alcatifa vermelha, o sabonete a rodar numa espuma densa, o iodo, a água oxigenada a fazer-me não respirar de dor, a ferver na ferida, e um penso desajeitado, que poucos minutos durou no sítio

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publicado às 11:16



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