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Contos #1

por fernandodinis, em 09.10.14

Não há rotina na sua vida, mas usa uma grande agenda onde anota com rigor as horas dos encontros que marca pelo telemóvel. Levanta-se tarde. Depois de um duche rápido, come um iogurte natural e uma peça de fruta. Pega no saco desportivo e vai ao ginásio fora do bairro, por não querer encontrar pessoas conhecidas. Pratica durante quarenta minutos, rodando de máquina em máquina, sem descansar. Quando termina, toma um novo duche no balneário e regressa a casa. Certos dias passa por um hipermercado, também distante, e faz todas as compras necessárias. Almoça pratos resumidos a vegetais e pouca carne grelhada.

Entretanto, o telemóvel começa a tocar. O álcool ingerido ao almoço proporciona maior coragem aos homens que lhe ligam. Combina encontros a partir das 15 horas. É importante que estes encontros não ultrapassem a hora de expediente. Anota o nome e a hora na agenda. Novo telefonema. Desta vez, adia para o dia seguinte, o homem protesta, depois acede. Volta a marcar na agenda.

Confirma a única marcação que tem para esse mesmo dia. É um repetente, o que lhe requer maior atenção. Retira um livro de anotações da gaveta da mesa-de-cabeceira. Abre-o no nome indicado e consulta que roupa usou da última vez em que esteve com esse cliente. A ideia é nunca se repetir, alimentar o factor de surpresa, elevar a expectativa. Gosta de pensar que são estes pormenores que garantem a fidelidade de alguns clientes. Nunca se apaixonou. Esquece os nomes deles breves minutos após o serviço. De imediato mete para lavar as roupas usadas, e finaliza com outro duche.

Passam trinta minutos da hora combinada, e o homem sem aparecer. Ela caminha entre o sofá e a janela, esperando-o. Olha para a rua e, sem sucesso, tenta adivinhá-lo no meio das gentes que circulam. Senta-se por fim no sofá, confortável, de pele, mas nem por isso consegue sossegar-se.

 

O homem está atrasado, algo que nunca acontecera, e sem ainda dizer nada. Nem um telefonema, nem uma mensagem. Dirige-se ao quarto já há muito preparado para o encontro. As persianas descidas, luz baixa de ambiente, música chill out, a cama aberta, perfumada, alguns utensílios sobre a mesa-de-cabeceira.

Senta-se num grande cadeirão em frente ao espelho que se estende por toda a parede e abrindo novamente o caderno de apontamentos, certifica o que consta no nome dele. É a sexta vez, e sempre fora pontual, formal na convocação, honesto no pagamento, afável na despedida. Mas o certo é que já está trinta e cinco minutos atrasado.

Volta a olhar para a sua informação. Das vezes que ele lhe ligara, tinha registado os respectivos números. Dois. Um número fixo, certamente do seu emprego, e um telemóvel. Geralmente, todas as chamadas que recebe são com número oculto, o que considerava ser natural. Muitos homens ligam-lhe só para ouvir a sua voz, a sua respiração, e depois desligam. Mas este homem que está atrasado não. Nunca ocultou de onde ligava, e isso tinha-a intrigado, tanto, que resolvera apontar os números.

O que terá passado na sua cabeça para cometer tamanho deslize? O que diferencia este homem de todos os outros, levando-a a cometer a maior transgressão possível na sua actividade? Não o saberá decerto responder. Digita o número fixo. Dez sinais de chamada sem resposta. Desliga. Olha o telemóvel. Alheia à total imprudência digita o número e fica a olhar o seu reflexo pelo espelho enquanto a chamada se estabelece.

Do outro lado responde uma mulher. A mulher do homem.

- Sim?

Olhando-se ao espelho, petrificada pelo som da voz feminina, a mulher da vida dá por si a falar com a mulher do homem.

- Penso que me tenha enganado no número, desculpe.

Antes de conseguir desligar, a mulher do homem prossegue.

- É claro que não se enganou. E eu sei quem você é.

 A mulher da vida mantém-se gelada, olhando-se no espelho.

- E sabe como sei quem você é?

Alguns segundos de hesitação.

- Como?

- Porque o meu marido falou-me de si.

De novo um grande silêncio a separar as duas vozes.

- Não acha estranho que o meu próprio marido tenha falado sobre si? A mim? – retomou a mulher do homem.

- Talvez…

- Talvez? É apenas isso que tem para me responder? Imagino que o seu forte não seja o de conversar mas, faça um esforço desta vez, tente colaborar comigo.

A mulher da vida deixa cair a cabeça para a frente. Os longos cabelos cobrem o seu rosto. Já não quer ver-se no espelho.

- Colaborar? Consigo? Não entendo como, nem para quê?

- É claro que entende. Fazemos o seguinte: Imagine que somos duas boas amigas e que este seja apenas um telefonema entre verdadeiras boas amigas…

- Vou desligar – anuncia a mulher da vida.

- Ele ainda não chegou, pois não?

Novo silêncio.

- Não, está atrasado.

- Quanto tempo?

A mulher da vida enche o peito de ar e responde ao libertar o mesmo ar.

- Mais precisamente quarenta e dois minutos.

- Ele nunca se atrasa. Não acha estranho, desta vez ele atrasar-se?

- Sim, acho… Talvez por isso tenha caído na tentação de ligar.

- E fez bem em ter ligado. Há muito tempo que tinha curiosidade em ouvir a sua voz. Teve mais coragem do que eu.

- Como assim?

- Porque eu nunca fui capaz de lhe ligar, para ouvi-la falar, perceber que tipo de pessoa existe em si.

- Não vejo o que isso a possa interessar.

- O que sente?

- O que sinto? Agora?

- Quando está com ele, com o meu marido?

- Não sinto nada.

- Alguma coisa deve sentir. Por favor, quero que entenda que esta conversa é mesmo muito importante para mim. Diga-me o que sente quando está com ele.

- O mesmo que sinto quando estou com outros homens. Nada. Absolutamente nada. É como se fosse uma outra pessoa fora do meu corpo, e é apenas sobre essa pessoa que os homens tocam. Cá dentro, em mim, ninguém toca. É isso. Não sinto mesmo nada.

- Costuma beijá-lo?

A mulher da vida pensa durante alguns instantes.

- Às vezes.

- Sempre pensei que vocês nunca beijavam os clientes.

- Eu não estou a dizer que beijo todos os clientes.

- Mas beija o meu marido.

- Sim… já beijei o seu marido… ouça, não estou a ver onde esta conversa nos possa levar. Lamento muito ter ligado…

A mulher do homem volta a cortar.

- É claro que lamenta. Imagino mesmo que sim. É como lhe digo, aprecio a sua coragem, e a sua boa vontade em ainda estar a falar comigo. Por que estará ele atrasado? Continua sem aparecer?

- Sim.

- Avisa-me se ele entretanto chegar?

- Não sei.

- Não quer mesmo saber por que razão o meu marido falou de si?

- Não, não quero.

A mulher do homem prossegue.

- Se calhar achará a resposta muito banal. Mas é a verdade e aqui vai ela: O meu marido falou-me de si porque, simplesmente, afirma ter-se apaixonado por si. Não acha caricato? Certamente não acha. Será o que mais vezes lhe deve acontecer. Mas eu ouvi serenamente tudo o que ele tinha para me contar acerca de si. E sabe o que aconteceu? Aquilo que eu senti ao vê-lo descrever, a si, com um brilho nos olhos que eu nunca lhe tinha visto? Não quer saber? Mas eu vou-lhe dizer: senti-me aliviada. Muito aliviada.

- Aliviada?

- Aliviada porque senti que o tinha perdido de vez, finalmente. Senti que a partir desse momento, tudo estava resolvido, que não precisava de me preocupar mais. Que poderia viver de uma vez por todas a minha vida, apenas a minha vida. Tem a noção da importância do que lhe estou a dizer?

- Talvez, não sei…

- É óbvio que não sabe. Se você mesma diz que nada sente com eles? Não é verdade? Como pode então entender tudo isto?

- Sim, é isso, não entendo mesmo nada – responde a mulher da vida.

- Sabe por que está ele atrasado?

- Você sabe?

- Sei. Porque está aqui comigo. Logo… não pode estar aí consigo. Ou seja… se ele está aqui é normal que esteja atrasado.

- Bom, assim sendo vou desligar. Parece que ele não vem mesmo.

- É isso. Ele não vai mesmo e sabe porquê? Porque o tenho atado à minha frente. Atadas as mãos, atados os pés, atado a uma cadeira. Tem a boca tapada e sangra da cabeça, por tê-lo empurrado e caído pelas escadas. E agora olha para mim. Durante todo este tempo. Durante toda a nossa conversa. E sabe? Ele parece assustado com a arma que eu lhe estou a apontar, frágil e ridículo. E vou fazê-lo. Agora mesmo. Que bom que teve a coragem de ligar e poder ouvir, e compreender… apenas compreender…

A mulher da vida ouviu um intenso estalo pelo auscultador, um som ensurdecedor, o som de um tiro e depois um silêncio, um grande silêncio. E a chamada sem se desligar. Olhou para o telemóvel e sim, a chamada não se desligava.

A campainha de casa da mulher da vida soou, e ela deu um salto assustada, como se aquele som fosse a repetição do tiro que ouvira pelo telefonema. Levantou-se, com a cabeça confusa e dirigiu-se à porta. Olhou pelo binóculo e viu do outro lado o homem que estava atrasado.

 

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publicado às 15:38


2 comentários

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De KEKE MANTEIGA a 09.10.2014 às 18:19

gosto tanto quando escreves.

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