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Contos #2

por fernandodinis, em 12.10.14

O inspector manteve-se sentado à mesa da cozinha durante muito tempo. Com o telemóvel à sua frente, não conseguia parar de o olhar. Não saberia responder se o olhava com receio ou desejo. Continuou a beber. As horas da tarde avançavam, imprecisas, e apenas a luz proveniente da janela da cozinha alterava o ambiente soturno em que se imobilizava. Olhou para a lata de cerveja que tinha numa das mãos. Não podia considerar-se alcoólico, pensava. Não necessitava de beber assim que acordava; o seu corpo não tremia por bebida; conseguia adormecer estando sóbrio; resistir as horas que entendesse sem ingerir uma única gota. Não sendo portanto viciado, o que o levava a beber de forma tão descontrolada, em certos dias da sua vida?

Olhou para o telefone com a mesma curiosidade com que olhara para a lata de cerveja. Aquele sim, o telefone, era o seu verdadeiro vício. Algo inquestionavelmente potente, capaz de o domar com toda a facilidade. Sabia que não tinha qualquer controlo nele. Não ao telefone enquanto objecto físico, é claro. A sua doença reinava nas conversas que tinha através dele. Nos diálogos intermináveis, nas acusações, nas perguntas, nas manipulações, nas palavras sujas, repletas de teor sexual. Aí habitava a sua mente, pilhada de discernimento, totalmente viciada na peculiar transgressão.

Levantou-se da mesa da cozinha com o corpo a não obedecer à ansiedade do cérebro. Atirou a lata de cerveja para o lava-louças com estrondo. Vestiu o casaco pendurado na maçaneta da porta que dava para o corredor. Pegou no telemóvel e meteu-o dentro do bolso interior do casaco. Confirmou se tinha cigarros.

Saiu para a rua. O lusco-fusco de Outono devolvia à cidade contornos cinematográficos. As luzes amarelas da cidade acendiam mais cedo, quando ainda no céu os últimos azuis davam lugar aos tons violetas escuros. Nas janelas dos prédios surgiam as primeiras luzes. O vento era cortante, as folhas pairavam por todo o lado em voos intermitentes. O inspector apertou o casado comprido que lhe descia até aos joelhos, levantou as golas onde tentou esconder o rosto balofo. Depois, sem ainda saber ao certo o que fazer, decidiu caminhar sem destino.

 

Desta vez, não olhava directamente as pessoas com quem se cruzava, um hábito seu meramente profissional, de tentar reter toda a informação visual que conseguisse. Fazia esse exercício várias vezes. Dois segundos eram suficientes para fixar o essencial e descrever alguém fisicamente. Dava especial importância aos rostos. Treinava a rapidez com que olhava desconhecidos, de relance, e depois dizia para si mesmo os pormenores retidos, como se descrevesse interiormente a fotografia tirada pelos seus olhos.

Caminhou ao acaso durante vinte minutos, afastando-se sempre do bairro onde vivia, e onde deixara ficar o seu automóvel. Mais tarde recorreria ao metro, ou a um táxi se o seu estado de embriaguez piorasse. Tencionava regressar a casa só para dormir.

Entrou num bar que sabia estar aberto até tarde. Sentou-se ao balcão, num banco alto para o qual subiu com dificuldade. O empregado aproximou-se dele e perguntou-lhe o que iria beber. Pensou com o olhar fixo no tampo do balcão e depois decidiu.

- Uísque duplo. Sem gelo.

Olhou o espaço em volta. O bar era minúsculo, com algumas mesas encostadas a pequenas janelas com vista para o rio. Teve pena que todas estivessem ocupadas. Iria gostar de se sentar numa delas, observar a extensão da cidade até às negras águas, já imperceptíveis àquela hora, ou pelo menos, contar as inúmeras luzes acesas das janelas dos prédios, da mesma forma que se observa um céu estrelado num monte remoto. Assim, sentado ao balcão, restava-lhe o olhar das garrafas nas prateleiras espelhadas e o vai e vem dos empregados. Mais precisamente do rapaz que o servira, já que a segunda empregada assegurava o serviço das mesas, que vinha buscar rapidamente ao balcão, mesmo quase ao seu lado.

Olhou-a por algumas vezes de soslaio através do espelho das prateleiras, conseguindo apenas alguns vislumbres, entre garrafas e garrafas, do que parecia ser uma rapariga muito interessante. Numa dessas viagens ao balcão, o inspector ficou a saber o seu nome.

- Madalena, a tosta para a mesa dois. – disse o empregado.

«Madalena. Que pôrra de azar tiveste Madalena, em eu saber o teu nome. Logo nesta noite», pensou para si.

Voltou a pedir outro uísque duplo. Bebia a uma velocidade perigosa. Sem jantar, sem ingerir qualquer alimento sólido há várias horas, não iria tardar a sentir o poderoso baque alcoólico. Mas não se mostrava preocupado. Ele conhecia de cor a sensação, aprendera a lidar com ela. Não o preocupava regressar a casa, e de que forma o iria fazer. O que agora o preocupava era ter sabido o nome daquela rapariga, e que, custasse o que custasse, teria de reincidir.

Acabou o segundo uísque duplo e levantou-se com cautela. Ainda estava em condições de voltar a casa a pé. Pagou, disse as boas noites e saiu. Cá fora, na rua, encostado à parede, gravou no seu telemóvel o número de telefone que se mostrava em pequeno no placard luminoso, logo abaixo do nome do bar.

«Madalena. Que pôrra de azar tiveste Madalena», continuava a pensar para si, fazendo o caminho de regresso a casa. Gostaria de caminhar mais depressa, mas as pernas pareciam não corresponder às directrizes da sua vontade interior. Sentia-se cansado, e quase que arrependido por não ter feito outra coisa senão beber desde as primeiras horas da tarde.

Subitamente começou a chover. Rajadas de vento intenso trouxeram uma chuva impiedosa, que parecia não afrouxar tão depressa. Esperou alguns minutos protegido pela entrada de um prédio, mas logo decidiu continuar. Chegaria molhado e com bastantes hipóteses de apanhar uma constipação, mas ao menos encurtava a espera do que já tinha decidido fazer.

Ajeitou junto ao pescoço as golas do casaco comprido e começou a caminhar o mais depressa que conseguia, sob a chuva intensa, fria e desconfortável. Olhou algumas vezes para a estrada, na esperança de encontrar uma luz verde de um táxi que pudesse chamar, mas naquelas ruas interiores de bairro seria pouco provável passar algum. Lamentou-se uma vez mais pelo seu infortúnio e caminhou rendido já sem se preocupar em olhar para a estrada, assim que ouvia a aproximação de um novo automóvel. De qualquer forma, a chuva fria que o molhava da cabeça aos pés revelava-se útil para o seu despertar alcoólico. Podia quase jurar que nem tinha bebido.

Ao chegar a casa, despiu-se de imediato e atirou a roupa para o chão, junto à máquina de lavar. Certificou-se que o aquecimento estava ligado e enfiou-se na banheira, esperando ansioso pela água quente. Tomou um longo duche, até não sentir frio. Enxugou-se rapidamente e vestiu um fato de treino. Procurou no bolso interior do casaco, completamente ensopado, o telemóvel e o maço de cigarros. Com sorte, ainda restaria algum que mesmo húmido, fosse possível fumar.

Sentou-se no sofá velho da sala. Procurou no telemóvel o número do bar que tinha memorizado com o nome Madalena, esperou dois ou três segundos, como se lhe fosse necessário munir-se de coragem, e premiu a tecla de chamada. Com a outra mão, levou um cigarro à boca e acendeu-o. Ao quinto sinal de chamada atendeu a voz de um rapaz, certamente o mesmo que servia ao balcão.

- Boa noite.

- Olá boa noite. Seria possível dar uma palavrinha à Madalena?

A voz do rapaz silenciou-se por alguns instantes. Depois, como se não tivesse percebido muito bem, perguntou:

- Quer falar com a Madalena?

- Sim, eu sei que ela está a trabalhar, mas é muito rápido.

- Muito bem…

O inspector voltou a ouvir a voz do rapaz a chamar o nome da empregada. Não era capaz de conter um sorriso malicioso no rosto. Sentia a antiga febre a apoderar-se dos seus sentidos. E tomada esta decisão, dado este primeiro passo, já não havia regresso possível.

A voz da empregada ouviu-se finalmente do outro lado da linha. Respondera com a entoação típica de quem estranha qualquer coisa.

- Olá boa noite. Desculpe estar a ligar directamente para aí, mas a questão é mesmo urgente.

- Quem fala?

- A menina não me conhece. Quer dizer, já nos falámos hoje, mesmo ao princípio da noite. Eu estive aí no bar, acompanhado, e sentei-me numa das janelas viradas para o rio. Eu sei que já deveriam ter passado por aí muitos casais, e que pela voz, decerto que não conseguirá recordar-se de mim…

- Sim de facto, não faço mesmo ideia com quem estou a falar.

- Não há problema, tudo bem. A questão é que estive aí no bar, sentado na segunda mesa do lado do rio, e perdi uma agenda muito importante. Eu gostaria de saber se você ou alguém a encontrou? É que não imagina a importância que ela tem para mim, com toda a sua informação.

- Uma agenda? Hum, não encontrei nada. Disse-me na segunda mesa? Eu posso ver se a encontro pelo chão…

- Se não for pedir muito… Ficava-lhe mesmo agradecido.

- Tudo bem, volto já.

O inspector sorriu ainda mais, mirando ao acaso alguns objectos da sua sala. Mas toda a sua mente imaginava agora a rapariga atraente, de nome Madalena, a percorrer o centro do bar em direcção à segunda mesa virada para o rio, e procurar no chão uma agenda que nem sequer existia, pedindo até às pessoas que lá estariam sentadas nesse momento que se levantassem por instantes, para que pudesse confirmar que nada havia sido esquecido pelo chão e debaixo da mesa. Imaginou-a a debruçar-se várias vezes, baixando a cabeça sem qualquer sucesso, e depois a fazer o caminho de regresso até ao telefone, tudo isto sobre o olhar curioso e incisivo do seu colega de balcão, que desde o início achara aquele telefonema muito estranho.

- Está sim?

- Sim sim – respondeu o inspector, fingindo-se solícito.

- Lamento mas não encontrei nada.

- Não? Tem a certeza? Desculpe estar a insistir, mas posso garantir-lhe que arranjo grandes complicações na minha vida se essa agenda desaparecer mesmo.

- Pois, mas aqui não está, garanto-lhe. Procurei muito bem. Podia tê-la perdido noutro sítio, já pensou nisso? – perguntou a rapariga um pouco alarmada com o tempo que estava a perder com aquele telefonema.

- Impossível. A última vez que mexi nela foi aí, disso eu tenho a certeza.

- Acredito, mas não a encontrei. Talvez ainda apareça. Pode ter caído noutro canto aqui do bar e se encontre quando fizermos as limpezas, ao fechar.

- Sim? É possível. Posso dar-lhe o meu número e fazia o grande favor de me ligar caso a encontre?

- Bem… – ouviu-se um suspiro de enfado.

- Peço-lhe desculpa estar a pedir-lhe tantos favores, mas acredite, essa agenda é mesmo muito importante. Apenas lhe peço que me dê um toque a dizer se a encontrou ou não, para eu começar a procurar noutros sítios por onde andei. Mas tenho quase a certeza que foi aí…

A rapariga começava a exasperar-se com a conversa.

- Tudo bem. Dê-me então o seu número – cortou-o finalmente, tirando do bolso o bloco de notas onde anotava o pedido das mesas.

Escreveu o número de telemóvel dito pelo inspector e desligou. Olhou para o empregado do balcão e abanou a cabeça, como se conseguisse transmitir-lhe «só a mim!...»

Do outro lado, o inspector sorria, ainda sentado e imóvel no sofá da sala. Depois, mecanicamente, puxou as calças de fato de treino para baixo e começou a masturbar-se.

 

 

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