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Contos #3

por fernandodinis, em 14.10.14

Antes do anoitecer, costumo sair de casa e percorrer vagarosamente o molhe até ao farol. Cruzo-me com pessoas conhecidas a quem aceno em silêncio. Ao aproximar-me da linha do mar, vou deixando para trás as ligações com a terra que habito. Gosto de levantar as golas do casaco comprido de inverno, e esconder nelas o rosto, dissimulando um segundo queixo que o avançar dos anos tem tornado mais visível. Finalmente junto ao farol, quase sempre já de noite, acendo um cigarro, sugando com a felicidade culposa de quem adia cuidar da saúde. Mas nos momentos em que o meu raio de visão se resume à imensidão do mar, iluminada alternadamente pelo foco do farol, sinto-me a crescer para dentro. A minha presença na realidade assume-se como um objecto inanimado, desprovido de utilidade. Mas por dentro, sou todo incêndio; a audaz forma como os poetas tendem a ver o estado puro da solidão.

Ardia eu imenso, e portanto, feliz por a minha vida conceder-me instantes de total abandono, quando o inesperado aconteceu. Numa dessas noites, senti alguém atrás de mim. O mar embatia com força, cujo som envolvente me proibiu ouvir a aproximação dos passos. Depois, restou-me apenas a vertigem da surpresa; quando se sente uma presença inesperada bem junto do nosso corpo, duvidando nos primeiros segundos se a pessoa que vemos possa ser ou não verdadeira.

 

Detinha-se diante de mim uma rapariga que não teria ainda vinte anos. Atrás dela estendiam-se as luzes do quebra-mar até à vila. Mais ninguém estava por perto. Voltei a olhá-la. Parecia esforçar-se em reconhecer-me. Depois, sem dizer uma única palavra, tocou o meu rosto delicadamente, com a ponta dos dedos (como se olhando-me não lhe fosse suficiente para ter certeza de ser eu a pessoa que procurava).

Poderia ter recuado, distanciar-me daqueles dedos frios e trémulos, mas algo no fundo dos seus olhos tinha a capacidade de me transmitir tranquilidade. Não sentia estranheza naquela presença, antes uma natural interrogação. Fosse quem fosse, tinha sido em muitos anos a única interrupção do meu cigarro silencioso junto ao farol, pelo que jamais a esqueceria.

- Jamais me esquecerei de si – disse-lhe como se já estivéssemos a meio de um longo diálogo.

Apercebi-me do absurdo da afirmação, um tanto eloquente para se dizer a um estranho. Obriguei-me a permanecer calado. Ela retirou finalmente os dedos do meu rosto e cruzou os braços com força, como se sentisse frio. Não parecia muito disposta a falar. Eu tinha aberto a boca por uma única vez e apenas conseguira tornar a comunicação ainda mais distante da realidade.

Inesperadamente a rapariga ajoelhou-se e abraçou-me. Escondeu o rosto contra a minha barriga e chorou convulsivamente, apertando-me com força. Lembro-me de ter olhado o pavimento do molhe, manchado pela tonalidade sépia proveniente das luzes amarelas dos candeeiros. Algumas ondas mais fortes, ao embaterem no quebra-mar, salpicavam o chão de grossas gotas de água. Enquanto a rapariga empurrava com força a sua cara na minha barriga, humedecendo o meu casaco com as lágrimas correntes, eu limitei-me a erguer os braços muito devagar, para com algum pudor, pousar as minhas mãos sobre o seu cabelo.

Vendo que não se decidia a falar-me, segurei-a pelos ombros e fi-la levantar-se. Os seus olhos tinham ganho o cansaço próprio do choro. Os cabelos desalinhavam-se sobre a testa. Voltou a cruzar os braços.

- Não me perguntes porquê hoje. Porquê neste dia. Porquê neste ano de tantos anos. Há coisas que não se explicam.

A voz dela era tão sumida que duvidava ter ouvido tudo com clareza. Inclinei a minha cabeça na sua direcção. Aquela presença não podia ser por acaso, nem por engano. Haveria um propósito maior. Prosseguiu com a mesma entoação de choro.

- Quero que só abras este envelope quando eu estiver longe. Promete-me.

Retirou um pequeno envelope de uma mala que trazia ao ombro.

- Promete-me. Só quando eu pisar a calçada da vila e desaparecer lá ao fundo.

- Porquê? Porquê só quando estiveres longe? – perguntei.

- Para que possa entrar no meu carro e desaparecer para sempre.

Independentemente do que estivesse dentro daquele envelope, eu teria de forçar para saber mais.

- Se a tua intenção é desaparecer para sempre, e nunca mais me veres, por que vieste então?

- Queria ter a certeza de que não sentia nada.

- Nada?

- Nada. E agora sei que não sinto mesmo nada. Por isso decidi que só abrirás esse envelope quando estiver longe. Promete.

Fiquei em silêncio.

- Promete – voltou a pedir-me.

Acenei afirmativamente com a cabeça. Ela passou o envelope para as minhas mãos, olhou-me com atenção por uma última vez, virou-se e começou a caminhar rapidamente em direcção à vila. Quando deixei de conseguir discernir no escuro o movimento do seu corpo, abri o envelope. Lá dentro, apenas se encontrava uma fotografia. Olhei-a com atenção. Reconheci o retrato de uma namorada muito antiga, com quem me relacionara durante poucos meses, e que nunca mais voltara a encontrar.

 

Só nessa altura, num desses breves acessos de clarividência, me ocorreu que nada era isento de sentido, que tudo no mundo está relacionado com tudo o resto.

(Paul Auster - Leviathan)

 

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publicado às 09:00



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