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Contos #4

por fernandodinis, em 15.10.14

- Há qualquer coisa no teu olhar… Quando me olhas a direito, no fundo dos meus olhos, o teu rosto adquire alguns traços de aflição. Quando tenho diante de mim uma pessoa assim, só consigo pensar em duas hipóteses: um homem com muitos segredos, ou uma criança a pedir desesperadamente ajuda. Há qualquer coisa no teu olhar, e ainda não descobri se o melhor é confrontar a tua verdade ou consolar-te.

- Não poderão ser ambas as coisas – pergunto-lhe. Levanto-me da cama. Estou nú, literalmente. Mas ainda mais nú do que quando me despi. Porque Roma não é parva. Porque Roma é daquele tipo de pessoas que nada lhe escapa, ou talvez seja eu daquele tipo de pessoas que tudo deixa escapar através do olhar. Uma merda.

- Ambas as coisas? – pergunta.

E eu levantado à procura dos cigarros em todos os bolsos do meu blusão. E lembro-me que ficaram esquecidos na mesa da sala, diante dos sofás, onde há duas horas atrás ainda conversávamos, e a ideia de dar uma foda uma incerteza. Saio do quarto para pegar nos cigarros.

- Ambas as coisas? E foges? És afinal a criança assustada que precisa de carinho? De apoio?

Volto a entrar no quarto com um cigarro e o isqueiro nas mãos, que lhe mostro.

 

- Não ando a fugir. Não tenho segredos. Não sou nenhuma criança assustada. O que te posso dizer de mim? Que serão precisos muitos anos de convívio para que me entendam? Que sou complexo, distorcido, exigente, até mesmo mesquinho? Não será afinal assim com todas as pessoas? Por que resumes tudo a um homem fodido ou a uma criança com as calças borradas? Não serão redutoras essas tentativas de me conheceres melhor? O que te contei de mim não foi o suficiente para teres uma ideia?

Sento-me ao fundo da cama, de costas para ela. Acendo o cigarro e levanto os braços como se me espreguiçasse. A melhor defesa o ataque. Eu sabia que todos os caminhos viriam dar aqui. A estas perguntas-respostas típicas de quem pondera uma futura paixão. Não são suficientes os corpos conjugarem-se bem. Existir suor, troca de fluídos, beijos violentos, sémen engolido num final apoteótico. Roma é uma mulher que quer sempre mais, e não se deixará enganar até ter aquilo que procura. Sinto todas as teias a prenderem-me. O registo típico de quem se entrega e o meu alarme interno para uma fuga iminente.

- Talvez tenhas razão – disse Roma. Ergueu o corpo da cama e veio sentar-se atrás de mim, as pernas como um turquês em redor da minha cintura, o queixo sobre o meu ombro direito, e os braços a surgirem ao lado dos meus próprios braços. O comprido armário espelhado do quarto reflectia-nos. Pegou no meu cigarro e aspirou profundamente, voltou a devolver-mo. Ficámos assim alguns segundos, a vermo-nos pelo espelho, os dois corpos um só.

- Quando regressa o teu marido? – perguntei-lhe com fingido interesse. Havia que trazê-la à terra, e esta era a única ponta solta que lhe conhecia. Ela respirou fundo e escondeu o rosto, pousando a testa no meu ombro. Por breves instantes apenas lhe vi o alto da cabeça, o sétimo chacra, e todo o cabelo louro caíndo pelo meu peito nú.

- Confirmas a minha teoria da criança assustada.

- Explica-te – pedi-lhe. Há muito que aprendera que se ganha mais em ouvir.

- A criança olhou para a montra da loja de brinquedos. Encontra um carrinho com o qual gostaria muito de brincar. Não descansou enquanto não o conseguiu obter. Recebe-o de presente, brinca com ele durante algum tempo, e depois arruma-o a um canto, pronto a ser esquecido, chegando à conclusão de que afinal não era com o carrinho com que queria brincar, mas sim com outro brinquedo qualquer. Qualquer outro neste momento servirá, desde que não seja o carrinho que já conhece.

O tom da sua voz adquirira despeito. Colocava-se a si mesma na posição de quem fica a perder. O que não deixava de ser irónico. Roma não era desse tipo de mulheres, de se apaixonar e sentir-se momentaneamente como um objecto usado. Se eu começava a sentir-me arrependido de ter embarcado neste jogo? Claramente. Mas todos os jogos antes de terminados, chegavam sempre a este posto de viragem. E com Roma, eu não esperava este tipo de diálogo. Se o fazia, era porque apenas se queria divertir um pouco, colocar-se na posição da mulher cobiçada que todos os homens desejam, e que apenas deslizara no seu casamento, vítima e forçada por uma paixão avassaladora que nunca esperara sentir. Estava claramente a mentir. A brincar. Ela não era o carrinho da loja de brinquedos que depois se esquece. O carrinho era eu. Não era eu a brincar com ela, mas sim a situação inversa.

- Achas mesmo que é isso que está a acontecer neste momento? – perguntei-lhe, oferecendo-lhe o cigarro, para que a obrigasse a levantar a cabeça e conseguir ver novamente os seus olhos através do espelho. Ela limitou-se a pegar-lhe e a fumar em silêncio, sem me responder. – Eu sou o brinquedo, Roma. O teu brinquedo escritor que numa manhã encontraste na praia e com o qual resolveste brincar. Desde o primeiro instante. A tua saída repentina da praia foi o nosso primeiro jogo. Tu escondes-te, e eu procuro-te…

- E encontraste – cortou com um sorriso vitorioso.

- O que me pode levar a pensar que brincas muitas vezes. Que o teu casamento é um enorme quarto repleto de brinquedos com os quais já estás farta de brincar. E surgi eu, como poderia ser outra pessoa qualquer, para agitar os teus tempos mortos, as viagens profissionais do teu marido. É um quadro tão típico Roma, que quase me escangalho a rir. Para quê tornar isto um episódio de futuros impossíveis? De promessas? De esperanças? Para quê tornar isto num romance?

- Há muita história pelo meio que separa o nosso primeiro encontro na praia e esta tarde de sexo.

- É um facto. Confesso que as nossas conversas a três foram-me inspiradoras. O teu marido é um homem inteligente. Tornou-se um tubarão dos números porque certamente se habituou ao dinheiro fácil, uma droga difícil de largar. Mas ele poderia ser outra coisa qualquer que o faria bem. Sim. Por momentos os nossos serões a três foram uma formidável forma de passar as minhas férias, sem ser preciso escrever uma única palavra.

- Porque falávamos dos teus livros? Da tua vida? Porque sentias que tu próprio nos proporcionavas momentos aliciantes, cheios de universos que não conhecíamos? Porque te fazíamos sentir importante, inteligente, diria mesmo, brilhante?

- Queres mesmo saber a verdade? – perguntei-lhe, olhando-a fixamente.

Ela desenlaçou finalmente o seu corpo do meu e estendeu-se até à mesa-de-cabeceira onde apagou o cigarro. Depois sentou-se com as pernas cruzadas, as costas encostadas no topo da cama. Assentiu com a cabeça, pronta para ouvir.

- Porque tudo o que vos disse foi inventado. E a cada noite que passava, eu descobria um mórbido prazer em mentir-vos e ver-vos excitados com o que inventava, cada vez mais empolgado em encontrar novas histórias para vos surpreender. Na verdade, eu não escrevi uma única palavra para um único livro, porque chegavam as histórias que ia escrevendo nas vossas cabeças.

 

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publicado às 09:30


2 comentários

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De KEKE MANTEIGA a 15.10.2014 às 11:07

quando sai do "forno"?
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De fernandodinis a 15.10.2014 às 11:26

Sabes que eu não faço parte da máquina.
A não ser que a máquina venha ter comigo.
:-)

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