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Contos #5

por fernandodinis, em 16.10.14

- E do que falavam? - perguntou o meu personagem, sempre com os olhos atentos aos meus movimentos.

Eu continuava a fazer malabarismo com as três bolas, pretas e brancas.

- De tudo um pouco. Do curso horrível que ela estudava com esforço, por exemplo…

Sabia claramente que esta resposta não lhe era suficiente. Experimentei passar uma das bolas por baixo da perna direita, e com sucesso, continuar o movimento original.

- Bravo! Vejo que foi uma boa professora. Mas diz-me. Estudava filosofia, ouvia Penguin Café Orchestra, e que mais?

Eu sorri satisfeito pela sua curiosidade. Não podia dizer que me desagradava entrar no terreno pantanoso das memórias, tanto para mais dentro de uma ficção, a primeira vez que acontecia. Idealizava tanto os meus personagens que acabava por entabular diálogos com eles, num qualquer lugar recôndito da mente. Na verdade tudo se resumia a eu próprio fazer as perguntas mais convenientes para que as respostas fluíssem por si.

- E numa dessas tardes quentes de Primavera, ela começou a ensinar-me malabarismo.

 

Segurarei uma das bolas na mão esquerda, e com a mão direita, continuei o controlo das outras duas, sem nunca as deixar cair.

- Estava muito calor nessa tarde. Era ainda Primavera, mas já se vestia manga curta. Sabes? Aquelas tardes em que sentes o polén no ar e todas as cores parecem mais fortes? Foi numa tarde assim que começámos. Ela explicava-me vezes sem conta o movimento e posição das mãos, e eu, com muita concentração, tentava impressioná-la. Queria mesmo conseguir aprender aquilo.

O meu personagem acenou com a cabeça.

- Não há dúvida que conseguiste mesmo aprender! E ela, o que dizia sobre os teus progressos?

Voltei a controlar as três bolas num movimento básico.

- Não me lembro do que ela dizia sobre isso. Recordo apenas imagens, alguns fragmentos visuais, que me chegam à cabeça. E tento retê-los, com toda a força, como se quisesse voltar a reviver tudo novamente. Lembro-me que a levava a casa no meu primeiro carro… Ela vivia numa rua que me trazia imensas recordações. A rua onde eu ia a um médico, quando era muito pequeno, por causa de um problema de saúde. Nunca te falei disso. Fica para depois. Vê apenas estas coincidências que teimam em acontecer com muita frequência na minha vida.

- E disseste-lhe?

- Não. Apenas me deixava ficar à janela do seu quarto, a olhar para o prédio em frente onde ainda existia o consultório. Ouvíamos os discos dos Penguin Café Orchestra, em silêncio. De vez em quando, os nossos olhos fixavam-se durante muito tempo, como num jogo a ver quem aguentava mais, até que éramos obrigados a rir. Depois, ela regressava aos livros de filosofia, deitada na cama, e eu voltava a olhar pela janela a porta daquele consultório e sentia-me como se afinal estivesse a viver uma vida que não me pertencesse.

O meu personagem continuava intrigado.

- Terá terminado o curso de Filosofia? Fará ainda malabarismo?

Eu parei finalmente segurando as três bolas sem as deixar cair. Olhei-o com profundidade e respondi.

- Não sei. Para mim, o importante é recordar das pessoas aquilo que aprendemos com elas, e tudo o que nos trouxeram de bom. De nada me serve hoje fazer malabarismo, mas continuarei a fazê-lo sempre, enquanto me fizer recordar que esta é mesmo a minha vida, e que nunca mais precisei de regressar àquela rua, onde um consultório médico me esperava.

 

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publicado às 09:32



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