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Fico Até Tarde Neste Mundo #1

por fernandodinis, em 12.02.15

A pergunta regressa, interior, inoportuna, e sempre com a força necessária para me deter, avaliar possibilidades, inventariar soluções: Porquê escrever? Não satisfeita, adianta com o feroz desconcerto, prossegue aguçada: Escrever o quê? Acreditando que as possibilidades de escolha se alargam com o decorrer do tempo (porque se lê desenfreadamente, porque se atenta ao que nos era enfadonho e distante, porque episódios vividos alargaram a nossa visão), seriam esperadas as motivações mais fortes para me lançar na escrita de nova obra.

O mundo é um manancial ininterrupto de possíveis ficções, visto que a realidade ultrapassa-as com desenvoltura e exacerbação. Hoje, ficcionar é quase escolher um plano de história e ameniza-la para o conforto de um leitor. As notícias, catapultadas caudalosamente nos incontáveis canais e plataformas televisivos, são por si mesmos, uma longa descrição de um romance clássico, passando a certeza de não se querer chegar a lado algum, pois o caudal não cessará nunca, é um continuum aceite tacitamente. Porquê então, pegar numa pequena garrafa de água e despeja-la num rio?

A razão de vaidade, se ainda persistir o logro de um ego gritante, só nos enfraquecerá às primeiras adversidades. Bastará percorrer os corredores da maior parte das livrarias para se concluir que existe um submundo onde reinam selvaticamente seres com os quais há a certeza de confrontação, e com os quais só sairemos a perder; mesmo que um acesso de súbita ingenuidade nos leve a pensar que tenhamos dentro de nós algo superior e inolvidável que nos conduza à superação. Não traremos nada de novo, mas se num rasgo de génio isso acontecesse, seríamos tratados e votados ao esquecimento da mesma forma que um principiante com débeis armamentos.

Numa palavra: é inglório.

Pergunto-me, finalmente, o porquê de iniciar este Fico Até Tarde Neste Mundo, se em poucas palavras explanei razões suficientes para o não fazer? Aceitemos uma cegueira, obviamente fingida, a todo esse submundo, a todo um passado de infortúnios (o rol de romances que se ficaram pelas vinte, trinta, cinquentas páginas), e até acreditar que não existe até agora qualquer obra por mim editada, nem sequer premiada. Sem cair em deslumbramentos, paira a quase-certeza de que um pequeno regato me impele à escrita como uma forma de fazer sentir-me vivo, e isso, para já, basta.

Se cumprirei a ironia do título, melhor ainda. Se falhar, é apenas uma pequena garrafa de água que despejo ao rio.

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publicado às 10:16



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