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Fico Até Tarde Neste Mundo #13

por fernandodinis, em 07.12.16

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A luz da janela distante rompe a escuridão. Foram alguns quilómetros para aqui chegar, a noite a desenhar curvas, a música numa única frequência, quase apenas um som, sem início ou fim. Ouve-se o mar a bater na falésia laminada, preia-mar de vagas frias. A literatura encontra a sua razão em madrugadas como esta. É preciso das muitas horas suster algumas como uma fotografia. Um respirar fundo que prendemos ao comprimir o diafragma. E neste aparente hiato, um diálogo espera pelo mecanismo das nossas vozes.

- Dou conta do planalto em noites como esta. Os faróis denunciam-te para lá das primeiras escarpas. Depois é como se dançassem, indecisos nas curvas que fazes, e eu vejo-os aproximarem-se durante muito tempo, a tornarem-se vagarosamente mais contornados e insistentes. Só muito próximo então consigo discernir a forma do teu automóvel, e ter enfim a certeza.

Quero perguntar-te quantos carros contas tu enquanto me esperas. Se esta estrada é ocasional ao ponto de conseguires prever que sou eu a aproximar-me, e quão dura é a sensação de perca sempre que alguns faróis passam defronte da tua casa sem parar. Mas é como se o frio me congelasse os maxilares. Gostava de não recear o silêncio como tu, ou antes ter a coragem de ousar feri-lo nesta pequena sala virada ao mar.

- Mas isto só acontece nas noites em que sei que vens. A minha capacidade de espera está treinada, quase só me sobressalto quando tenho a certeza de que és tu. Durante o dia desço a falésia pelas íngremes escadas de madeira. Quando faz muito vento, os meus cabelos armam-se com a areia e a humidade das ondas fortes, e eu penso o quão horrível possa estar caso tu aparecesses sem avisar. Mas nunca apareces e eu sossego-me, deixando à minha passagem as marcas pela areia ainda húmida. É apenas isso que fica até à troca de marés.

Gostava de conseguir confessar-te a importância destas palavras do teu quotidiano, dos mais inofensivos objectos, dos cremes sobre o toucador, do espelho a diminuir com o passar dos tempos, manchado de ferrugem nas extremidades, de algumas flores do campo a secarem na jarra da entrada. E como a presença do meu corpo na tua casa me causa sempre estranheza. Algo dubiamente me atrai como me impele a fugir. Agarro-me com força ao que me dizes, é uma salvação que ainda me permite regressar, estes minutos em que volteio pelo espaço e escuto a tua voz sussurrada. Certas noites pareço ser enorme, ou que a casa seja ainda mais exígua, sou medroso a escolher o lado do sofá, o lado da cama, a cadeira da cozinha, a espreguiçadeira do terraço.

- Entras em mim como se te quisesses anular, como se desejasses desvanecer a tua presença dentro do meu corpo. Recebo-te quase com afecto perante tanto susto. E a força com que fechas os olhos quando me beijas. Não digas. Não precisas. A tua cabeça é uma nuvem cuja sombra cobre uma grande área. Se me chove em cima, talvez seja por acidente. Eu conheço-te. Não te peço mais do que isto.

E vejo repetir-se o episódio do medo, uma segunda casa a que poderia chamar de solidão. E a imagem da janela acesa ao longe, estremecendo no retrovisor, e fico sem saber se é a noite que a apaga numa curva apertada ou se és mesmo tu que te deitas, e num movimento lento desligas o candeeiro junto à cama.

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publicado às 15:51



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