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Fico Até Tarde Neste Mundo #2

por fernandodinis, em 13.02.15

São fotografias interiores, fragmentos visuais, analepses, o espólio a que o escritor recorre amiúde para a construção de cenas e ambientes. Escrever uma memória é revivê-la, diz-se. O certo é que se torna útil no encontro do tom pretendido. Na escrita de um romance, empresa quase sempre levada a cabo ao longo de vários meses, não perder o tom é uma das prioridades. Não perder o pulso ao ritmo, à intensidade, ao afloramento desta ou daquela personagem, enfim, a lista seria extensa se fosse esse o propósito.

António Lobo Antunes mune-se destes álbuns fotográficos como poucos. Desordena a ortodoxa ideia que se tem de romance e parte em busca de um âmago que sabe existir, escavando (não existe outro conceito), enriquecendo as vozes que chegam já não como personagens de uma trama, mas como pessoas que podem existir e viver mesmo ao nosso lado. O resultado é uma inerente linguagem poética que nos espanta e assombra, que delicia e transtorna, densa e quase caótica (uma sala exígua cheia de pessoas a falar simultaneamente); onde o tom é mantido e conservado com invisível mas genial perícia.

Exemplo para que se registe que a nossa memória não serve apenas para a diarística. Revela-se antes um manancial a que o escritor dispõe tempo inteiro. Mas será ele livre de recorrer a essas galerias empoeiradas sem que seja apontado de saudosista? Escrever sobre um amor antigo, apenas porque ele fornece o ritmo para determinado conto, é sinónimo a querer reviver esse amor? Se é essa a porta escolhida do longo corredor das reminiscências quererá dizer que sentimos falta do eu que se foi ao vivê-lo anteriormente? Absolutamente que não. Eis o objectivo do meu texto.

É tentação fácil para qualquer leitor julgar o escritor pelas suas palavras. Encanta-se com o logro, pois quase sempre é abismal a clivagem entre o homem-escritor e o homem-pessoa. Os limites da ficção esboroam-se deliberadamente, o leitor quer acreditar afincadamente «ele viveu isto!», como se só assim possa o texto ganhar maior validade e verosimilhança. Esta liberdade e desvinculação terá de ser garantida a priori. Usufrua-se da história que nos é contada sem fazer dela um jogo de enigmas, véus por levantar, teorias conspiratórias.

Sentemo-nos a ler como quem assiste a um truque de ilusionismo. Deixemo-nos espantar e não percamos o encanto do espectáculo na forçosa teimosia em desvendar de que forma foi ele construído.

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publicado às 09:29



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