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Fico Até Tarde Neste Mundo #3

por fernandodinis, em 16.02.15

Este movimento de aproximação, em arco, dissimulado, nunca directo, manifestamente ocasional. Se se dança, sem a mínima lágrima de suor ou restolhar de roupas. É algo que inflige magnitude e nos força, guerreiros desarmados à espera da pilhagem. E no semicerrar dos olhos um grito de chamamento, um concreto consentimento de cedência. Deixemo-nos ir porque já é música que se ouve.

Que nos seja sempre uma tarde plácida de primavera, os primeiros aromas da terra fecunda, uma charneca a sobressair ao longe. Um quarto virado a poente, a luz sépia a tingir o fundo da cama, sibilinas palavras, gestos lentos, um rumorejar de cidade. Ou que nos calhe um inverno impiedoso e uma casa junto ao mar, o vento a picar janelas, saraivada revolta que nos lembre o quente do estar aqui e agora, absortos num vinho escarlate que se bebe impunemente.

Conseguir dizer-te isto da forma mais fácil, sem cair no lugar-comum onde o desejo quase sempre nos encurrala. Escolher minuciosamente as palavras, sem exagerar, sem os ornamentos de quem já cegou, de quem já age de olhos abertos sem nada ver, todo errado de vontade.

Nomear-me «clandestino no teu corpo», e nele começar de novo o que tantas vezes se repete, em busca da novidade que nos arrebata, do espanto sempre diferente, um não respirar para que tudo seja sensação e pele e saliva; por fim uma mecânica força em embater, constante, como que infinita, para se chegar ao arroubo e assombro e cansaço e um «amo-te», como se só na loucura houvesse lugar para assumir esse «amo-te», exaurido e sorridente. A cama transformada numa extensa praia onde corpos deitados na areia, as ondas uma melopeia levando à sonolência, ao entorpecimento elástico dos amantes.

Tanto que te sinto neste pouco que te sei dizer. Há a certeza porém de aproximar-me cada vez mais, e acertar na definição do indizível, indecifrável, digo mesmo místico. É como deitar o cinzel à pedra, ver nela o já lá existe. Ou ainda as palavras que ficam por partilhar, porque só no silêncio se escutam, como as horas da noite, quando acordamos de um sonho e nos queremos situar no mundo, finalmente despertos.

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publicado às 11:24



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