Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Fico Até Tarde Neste Mundo #4

por fernandodinis, em 18.02.15

Tudo se banha de vermelho na rasa luz do nascer do sol. Perto o repicar de um sino faz voar um macaco de ramo em ramo. Os primeiros monges banham-se nas águas do rio corrente. Um sadhu mantém-se estático a meio de uma ponte de corda, que oscila à passagem de quem o ultrapassa. Alguém sobe um tronco com perícia, ceifando ramos com um machado ferrugento, os ramos caem no chão e depressa são colhidos por algumas vacas que lhes mastigam as folhas. Pelas estradas, mulheres caminham carregando sobre as cabeças grandes molhos das colheitas; não se percebe o que carregam, porque me detenho no seu semblante em esforço, nas roupas puídas e empoeiradas, nos pés descalços.

Nas ruas principais o caos é constante, as estradas ladeadas por bancas de venda, onde parece vender-se de tudo: fruta, legumes, especiarias, pentes, jornais, pequenos electrodomésticos. Há barbeiros que cortam cabelo nos passeios como engraxadores. De vez em quando, enormes elefantes produzem ainda maiores engarrafamentos, quando são forçados a atravessar determinado cruzamento, carregando incontáveis quilos das terras fecundas. O guiador exala fumo de um forte charuto enquanto lhe espanta as moscas que lhes pousam no corpo com uma toalha imunda.

Um muezim parece ter descido do minarete, continuando a gritar preces que junta à sua volta dezenas de pessoas, que lhe acedem com a cabeça e lhe exibem a palma das mãos. Há uma profunda harmonia inata nestas massas de gente, de castas, de religiões. Assim como os aromas carregados a gasolina, lixo, urina de cães esqueléticos. Todos os elementos se unificam num ambiente de bulício, parecem existir catástrofes a todo o momento.

Crianças fardadas que faltaram às aulas guiam alguns turistas. O que deles receberem será prontamente trocado por cigarros que fumarão nos becos ou nos degraus molhados da margem do rio. Riem à minha passagem ostentando a dentição branca, os olhos maviosos, sem ponta de pudor. O seu único sonho é uma scooter para guiarem frenéticos pelos obstáculos. Ao sabor do vento dançam as pequenas bandeiras tibetanas. Não se entende onde começa e acaba determinada lógica. Há quem medite neste antro de céu aberto, colorido, e se esqueça do ruído, dos estrondos, ou talvez os incorpore como um mantra sem significado.

Eu mantenho-me conscientemente perplexo, e forço-me a descrever o que nem os olhos conseguem abarcar na totalidade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:31



Mais sobre mim

foto do autor



Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D