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Fico Até Tarde Neste Mundo #6

por fernandodinis, em 03.03.15

Como eu não estava em condições

de tornar os homens mais sensatos,

preferi ser feliz longe deles.

Voltaire

 

Estamos todos virados para dentro, e se alguém pensa o contrário, estará a adiar uma resignação irreversível, está apenas concentrado em distender uma ilusão com um fim provável, mais do que provável, um fim garantido. Mas que fim é este, como se efectivamente algo chegasse a um termo, quando ironicamente se trata afinal do princípio de tudo? Uma espécie de antes-de e depois-de. Quando a resignação chega – de que o homem é apenas uno, que não sabe viver em sociedade, que esgotou o encantamento, que vive numa assumida mediocridade, que apenas lhe resta um sofrimento permanente – não estará finalmente aberto a ver tudo com melhores olhos; ver para lá do que se finge óbvio, do que sabemos que é a verdadeira existência enquanto nos demoramos a inventar-nos noutras? Como explicar: Chegará sempre o dia (a idade?) em que nos cansamos de fingir, de ‘acreditar’ e o alento esvanecido paulatinamente cessa de vez. O que nos resta? A resignação passa por uma aceitação tácita, ou estaremos a desafiar extremos – como aqueles que nunca aceitando-a se suicidam como forma de libertação, de protesto, de indiferença até… - que sabemos nocivos. Mas aceitamo-los. Há então uma calma que chega e nos tolda os movimentos. Existe finalmente uma explicação para a realidade absurda em que se vive: que é absurda porque ainda existe quem assim a não considere. Por que razão nos identificamos mais com determinadas pessoas? Porque muitas delas já assumiram estar nesse patamar, e poucas nos ensinam a vê-lo. E malogradamente somos obrigados a tratá-las de uma forma diferente. Elas não mudam (algum dia mudarão?); somos nós quem muda a forma como as olha. Como não utilizar então a palavra futilidade? Não pelo significado do que não tem interesse, mas sim, e aqui sim, pela valorização do que é superficial, inútil e material? A dessintonia prevalece desde os actos maiores aos que se repetem na banalidade do quotidiano. A todo o momento somos lembrados e confrontados com quem ainda acredita, com quem ainda não vê, com quem ainda finge não fazer parte de, com quem ainda simula um mundo só para si. Só a experiência de uma tragédia colectiva poderá ser capaz de a determinado momento, numa ínfima fatia diacrónica na história, imbuir transversalmente os homens deste espírito. Até lá, há quem se feche ao mundo inventado, à realidade dos tempos actuais, com todas as deformações de espírito que dela advém. Até lá, haverá sempre uma pequena parte que opta pelo silêncio face à sonora repetição da maioria que aprendeu sem questionar. Até lá, haverá quem opte por comprar uma mala de valor idêntico a cinquenta livros; a escolher o último modelo automóvel com todas as funcionalidades possíveis e não fazer pisca quando é necessário assumir a sua presença aos outros. “Eu não me assumo perante ti, porque não te reconheço.” Até lá, só será feliz quem assumir-se de tolo. Mas tolos são os marginais, os degradados, os evasivos. Neste mundo inventado o lugar deles está bem circunscrito, e são difíceis de se avistarem do alto.

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publicado às 12:13


3 comentários

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De Telmo Matos a 03.03.2015 às 15:39

Muito bem escrito.
Parabéns.
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De fernandodinis a 03.03.2015 às 15:43

Obrigado Telmo!
Volta sempre!
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De Telmo Matos a 03.03.2015 às 18:25

Voltarei por certo

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