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Fico Até Tarde Neste Mundo #9

por fernandodinis, em 23.04.15

Tanta teimosia em julgar-me ausente se da boca não existirem palavras, encontro-as em fotografias, negativos, fitas gravadas com vários instrumentos; porquê também a teimosia de nunca ser apenas um instrumento, visto ser apenas uma boca e logo uma única voz para uma possível palavra?

Quase sempre é escolher o lado mais escuro e caminhar nele à espera de luz. A luz das cinco da tarde coando-se pelas cortinas, oblíqua, reflectindo-se em sépia pelos objectos. Tantas vezes a mesma frase de forma diferente, como que a mesma terra com ferramentas diversas. A mesma boca enovelando silêncios, apenas olhos enormes a sussurrar carícias. E os mesmos objectos nos devidos lugares, mas tudo a aparentar um caos, o alvoroço das coisas perdidas. Tudo ganha maior proporção. A distância, a ausência, o esquecimento.

O vento levanta grãos de areia. Talvez seja dezembro na memória, e eu de cabelos compridos a caminhar em praias. Tenho um retrato assim. A cabeça e ombros a emergirem de uma duna, quase uma fotomontagem à primeira vista. Mas vários grãos; os de areia, os da película fotográfica, e nesse ruído afinal um som, mesmo que longínquo, e se ainda assim um som, poderá ser também uma palavra, logo uma boca. E afinal o silêncio é somente a respiração de um instrumento para se escutar outro.

Perguntas-te a que caminhos te levou a insana procura de ti mesmo senão a uma caixa de dimensões cada vez mais reduzidas onde te custa respirar. E pouco tens a contar-te, algo que te revele, uma clarividência capaz de trazer de volta todo o esforço. Descobres «eu sou isto» e fica o desapontamento da criança que desembrulha o brinquedo errado. E tomas pulso aos anos em que caíste no engano de te pensares maior. Quase sempre em horas vagas este sabor, este frio permanente, um desconforto de outono. Nas estradas vazias que conheces de cor, estala esta incómoda ideia, e já não é apenas uma caixa imaginária onde guardas um eu inventado: é todo o teu corpo trepando e crescendo pelos muros, sombra diluindo-se ao quádruplo se alguém troca a iluminação. Eis tu com vários tamanhos. O tempo fragmentado em supostas clivagens. Por vezes tudo desce sobre mim como violentos temporais. Tudo ainda dentro da caixa, e a desconfiança de essa caixa não ter um fundo onde possas sibilar em cansaço «chegou ao fim». Velas, incensos, óleos, suor, energias a fluírem plácidas. As tuas mãos cientes de visão própria e tudo o resto a desmoronar-se pelo caminho das estradas decoradas. És um muro em forma de caixa sem fundo. És uma roseira que enleia as redes ferrugentas de um terreno fabril, uma primavera ácida pelas primeiras azedas, ribeiros que ainda gritam pelas últimas chuvas. E o teu corpo prostrado. Perguntam-te «sente dores», e tu ainda na incógnita de te abrirem, para logo te fecharem com dezasseis agrafos. E as mesmas mãos ousam moverem-se pelas falanges. «Estou aqui, ainda», concluís. E muitas vezes repetes o processo da dor física para te fingires apto em tudo o resto. Hoje pouco revelas dessa cicatriz, não fosse um certo lacrimejar de olhos a denunciar-te, um ribeiro barulhento das últimas chuvas a desaguar num poço sem fundo.

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publicado às 11:43


3 comentários

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De Vasco a 23.04.2015 às 15:40

Bem, menino Fernando

Como dizem os brasileiros Amei.

Parabéns.

Simplesmente delicioso, nesta minha sobremesa literária.
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De fernandodinis a 23.04.2015 às 16:22

Muito obrigado, setôr.
Abraço.
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De Vasco a 23.04.2015 às 16:24

Grrr, chamo-me Paulo.
Doutores são os médicos, os farmacêuticos,... Eu sou professor mas antes disso, Paulo. Abraço, rapaz.

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