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O Corpo Insular - Capítulo 1

por fernandodinis, em 15.12.15

Encontrar um princípio para tudo isto. Imaginemos uma casa térrea, um plátano a fazer-lhe sombra, o sol oblíquo a manchar as paredes através das folhas. Uma imagem genesíaca de poema, sílaba a sílaba, uma construção provável onde possam caber o entendimento e a loucura. A fuligem de outubro timbrando as margens, quase difusas. Um rosto surge à janela, desvia as finas cortinas amarelecidas, e aquieta-se. O mundo acontece.

Este é o meu corpo, e a partir de então ganho a noção de finitude. Tornei-me humana, afecta à biologia, isto é, olhei-me como algo com vida, defeituosa, passível de doença e por isso apta à morte.

Aqui o mundo passa rápido. É uma janela que o traz para dentro. Se fico deitada, guio-me pelos sons. As primeiras aves na manhã, a motorização das estradas, o quase silêncio pós-almoço e muitas vozes perto do crepúsculo. Durante a noite só a minha respiração a lembrar-me que estou acordada.

 

- Gostava de ter em mim a paciência de um pescador. Esperar, esperar, esperar, e ainda assim, regressar a casa reconfortada mesmo sem peixes.

- Entende que não são os peixes que procuram, mas sentir a vontade do mar. É isso que os fascina.

- Mesmo assim. Ser pescador. Não esperar nada.

 

Sobretudo não perder raiz. As mãos viradas para baixo enterrando os dedos na terra. Os primeiros ventos, a rapidez dos dias, ou seja, a pouca luz, porque os dias mantêm-se longos, uma estrada sem fim, penosa, ferindo pés descalços, os minutos presos. Para garantir que existo para além deste quarto com uma janela, dispo-me. Ao espelho do guarda-roupa revejo-me com estranheza, sou outra, diferente do que poderão assistir do lado de fora, eu à janela, quando me demoro a fitar a rua, a curva apertada à direita, ligeiramente desnivelada, desaparecendo em descida. Nesta nudez consigo olhar-me com curiosidade, como se olhasse um corpo diferente.

 

- Não te fazia assim. Corpo de adolescente, os mamilos agudos, uma magreza de ossos desenhados.

- Não vieste ontem. Disseste que virias.

- Tens no teu corpo o cheiro desta casa, ou esta casa cheira a ti. Ainda não entendi. Vim hoje à procura desse cheiro. Putinha.

- Avisa quando não puderes vir.

 

E neste putinha surge um sorriso que me incendeia. Tanto de desejo como de ódio. Ainda não entendi. Muitas vezes cerro as mãos e bato-lhe no peito quando me penetra (ele não me fode, penetra-me efectivamente, abre caminho, desvenda mistérios, sensações pioneiras), por ser tão bom, e grito-lhe:

 

- Odeio-te por ser tão bom. Dás-me tanto prazer que te chego a odiar.

- Minha putinha.

           

Penso na paciência dos pescadores e em como regressam a casa envoltos de paz de espírito. Era dessa paciência que eu precisava, no caminho da janela para a cama, quando já são altas horas da noite, e entendo finalmente que não virás.

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publicado às 13:10



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