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O Corpo Insular - Capítulo 2

por fernandodinis, em 18.12.15

O abismo do lugar-comum. Sempre quis de nós um amor impossível, cunhado através dos tempos, mesmo que de dor e erro. Porque desentendo a banalidade dos dias, ofende-me; agride-me o comezinho, o expectável. Porque a vida nunca assim o foi, quanto mais um amor. Troco todos os vestidos de noiva por uma paixão que me arrebate e destrua com memórias inesquecíveis. Evitar a contradição. O que é comum? O que é um lugar?

Talvez por isso o meu útero analfabeto, abortando mês a mês, só porque sim. Não há chamamento. Os relógios não me cabem no pulso fraco. Canso-me facilmente. As minhas mamas intactas, sem conhecimento de outra função, imaculadas de mordidelas de bocas nuas de dentes. Respondem ao frio e quando as chupas em delírio: nesse momento ofereço-as como um segundo sexo com vontade própria, deixa de ser o meu desejo para ser a necessidade delas. Sou muito fiel às necessidades, por isso me deito e me abro, e me venho.

 

- Avó, fala-me do avô.

- Um dia que entendas a palavra ausência.

 

Disseste-o tantas vezes que se tornou um vaticínio, visto que a ausência a minha companheira dos últimos anos. Se acordo tarde e ainda assim me deixo ficar deitada, observo o tecto e as paredes deste quarto, onde tu avó, viveste os teus derradeiros anos. É tão intensa a certeza que acredito serem estas paredes que nos contamine. Padecemos de uma invenção arquitectónica, de um ar que se respira e enfraquece. Contraímos a solidão e queremos tratá-la a todo o custo, fechar o ciclo. Avó. Sou tão como tu.

Poderia fazer destas palavras a derradeira evasão em vez de adentrar profundamente nas cinzas. Sentir em mim algo a que pudesse chamar passado, mas ainda estou dentro dos dias que me preencherão a memória. Não há distanciamento temporal, faltam várias estações de chuva para a clivagem se dar por si, uma lâmina a lembrar firmamento entre um céu carregado e o mar. Ainda habito a névoa espessa, e não saberia responder em que hemisfério me encontro.

A visão é todo um nevoeiro. Desculpa-me afinal o lugar-comum avó, mas juro que apenas posso chamar a isto de nevoeiro. Porque se decidir andar vou vendo um pouco mais; mas quase sempre acabo deitada nesta cama e pouco avanço, e pouco vejo, pouco nomeio. O mundo resume-se a estas linhas do tecto, as rugas de uma casa a ajeitar-se na terra e inúmeros pontos de humidade nos cantos, como um espelho antigo oxidado nas extremidades.

O tanto que pesa. Se digo que me pesa todo o mundo, não há nenhuma intenção poética, qualquer tentativa de fuga; é apenas um abrir de olhos e não encontrar qualquer possibilidade de alívio. Apenas a morte parece guardar a almejada serenidade e desviar-me desse caminho que tem sido a minha vida inteira. Por vezes, preciso deste dramatismo, que embora verdadeiro, parece iludir-me e encantar-me numa desgraça que instiga a querer ir mais além. E não será este mais além o meu sofrimento?

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publicado às 13:05



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