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O Corpo Insular - Capítulo 3

por fernandodinis, em 30.12.15

A casa tem diminuído, apesar de continuar grande. Tem quartos onde já não entro. Não preciso deles. Ocupei o teu, avó, e chega-me. Quando regressei vi que o nosso campo tinha sido cortado rente por uma estrada nova. A cidade quis engolir tudo e agora resta apenas um pequeno horto, uma fronteira de cimento e ainda placas que supostamente me protegem do permanente ruído do trânsito. Refugio-me neste quarto, no lado oposto da casa, virado para a rua antiga de candeeiros amarelos, para fugir dos gritos da cidade nova que quer comer todas estas paredes. Utilizo a sala grande que converti em atelier. O alpendre onde lanchávamos nas tardes de primavera também foi abaixo. A cidade comeu-o. Não quis que a cidade chegasse ao teu quarto avó, e por isso resolvi ficar. Qualquer lugar é propício ao caos, e este é perfeito para errar. Mas dizia que a casa, ainda assim, é enorme. Preciso de muito pouco. Uma pessoa solitária não é apenas de pessoas. Também o é de espaços; uns porque os evita, outros porque nada lhe dizem. Tudo igual, espaços e pessoas, só muda a nossa vontade de habitá-los.

 

- O pai disse-me que o avô não morreu. Não está cá porque fugiu.

- E o teu pai? Também não fugiu e não o sentes como morto?

 

Doía-me que também tu me mentisses. Julgava que só os homens o conseguissem fazer, olhos nos olhos, impiedosos, cientes da crueldade, malignos. Por que nos fogem os homens? Para quê esta imensa capacidade de amar, sem um único alguém que o mereça? Há um frio em cada gesto de procura. Uma contrariedade em assumir a necessidade de afecto. Não há dissimulação possível. Soltar-se-á certamente um odor do nosso corpo, denunciador. Os animais devem ter este processo decorado nos seus instintos, na luta entre quem é forte ou fraco. Nós gritamos não com todas as forças para pedir um abraço. Não será difícil perscrutarem a nossa verdadeira intenção, e desarmadas oferecemos o corpo. Como se o desejo fosse um castigo.

Certas tardes, quando exausta me deito na cama, penso na minha mãe. Tudo o que dela sei saiu da tua boca. Que duras são certas vidas. A nossa é feita de perdas. A tua filha única. Eu a filha única dela. Mas agora acaba, não deixarei cá ninguém. Sou eu a fechar o ciclo, a porta das histórias. Tive sorte em ser muito pequena. Chamemos-lhe sorte, enfim. Poderia ter saído daquele automóvel com deficiências que tornassem a tua existência (a minha?) ainda mais difícil. Poderia não ter saído daquele automóvel. Assim como ela, que ainda duvidou a morrer, por isso meio corpo caído no capô a atravessar o vidro frontal, e presa da cintura para baixo na confusão de metal. Há pessoas que são projectadas e terminam a vida num voo, como se já conhecessem o caminho do céu. Ela nem isso conseguiu. É estranho, visto estar a fugir. Não lhe sinto nada, avó. Tu fizeste muito bem o papel de mãe e nem isso consegui agradecer a tempo. Falhei em tudo.

Perdi a conta aos dias. São uma sucessão estéril de acontecimentos, uma dor aguda e contínua de espera. Julgo ter encontrado um início. Eu sei que não me ouves, avó, mas compreende que é mais para mim que digo tudo isto.

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publicado às 21:53



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