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O Corpo Insular - Capítulo 4

por fernandodinis, em 07.01.16

Finjo ter perdido a conta aos dias que não saio desta casa. Amélia traz-me compras que escrevo no bloco de faltas e deixo na cozinha. Quase não a vejo. Para limpar-me o quarto, aproveita alguma das manhãs em que me demoro mais no atelier. Mas trocamos poucas palavras. Sei apenas que tem um filho na Suíça e um marido que gosta de beber. Simpatizo com a Amélia porque aprendeu rápido a respeitar o meu espaço e o meu silêncio. E sorri. Sorri como se sentisse uma permanente compaixão pelo mundo. O sorriso indefinido mas apaziguador, a lembrar uma figura sacra; uma santa com as mãos levantadas à altura da cintura e a cabeça a tombar para um dos lados, de olhar e sorriso compassivos.

 

- Quando a vi estendida, o susto que me pregou! Salvei-lhe a vida, menina…

- Não, Amélia. Impediu-me apenas de morrer.

 

Uma ou outra coisa acontecera. Minimizo o episódio. Cai-se facilmente na tentação de experimentar todos os caminhos possíveis. Numa nova possibilidade todo o encanto do desconhecido. É fácil errar. Neste caso, há uma enorme diferença entre trinta e quarenta comprimidos. Foi há três anos, mas parece que foi noutra existência, ou que nem sequer fora eu e Amélia a vivermos tudo aquilo. Ficámos ainda mais silenciosas uma com a outra. Mas sorri para mim, na sua santidade, sem carregar no olhar um ínfimo indício de acusação. Respeita a minha dor. É disso que preciso.

 

- A menina não entende que me paga para limpar o lixo? Como posso trazer mais lixo para casa?

- Tem razão, é contraditório, deixe lá.

 

Isto sou eu a querer ficar fechada em casa, e ela a querer que eu saia, com medo que aconteça tudo novamente. Não deixo que o diálogo se alongue, não lhe quero fazer as vezes do filho que emigrou. Quero ter a certeza que não se preocupa comigo. O que ela chama de lixo são todos os objectos e papelada que eu encontrava pelas ruas. Gostava de passear pelo bairro vizinho, de olhar atento a tudo o que pudesse encontrar. O que ela chama de lixo é, efectivamente, lixo. Pequenos objectos de plástico, componentes informáticos, utensílios partidos de cozinha, alguns electrodomésticos que escondem dentro engenharias invulgares, papéis, principalmente papéis com mensagens. Nesses passeios procurava muito a entrada do metro, junto aos grandes edifícios de escritórios. Cruzava-me com esses jovens que são pagos para distribuir folhetos de publicidade, e não vão embora enquanto não distribuírem tudo o que levarem. Pedia-lhes sempre muitos papéis, e eles enchiam-me as mãos, como se ficassem mais leves, mais soltos, prestes a iniciarem uma corrida para algures. Enternecia-me o semblante de gratidão; sentia-me importante, útil. Depois chegava a casa e despejava tudo sobre o largo tampo de madeira do atelier, ávida das mensagens que poderia encaixar para as minhas peças tromp l’oeil.

O prodígio das mãos. A substância do imaginário num espaço de dois metros por um. Por vezes penso que o meu corpo inteiro caberia numa tela, levando o efeito tridimensional ao extremo da perfeição. Pode-se velar alguém numa galeria de arte? Que diferença há na matéria? Na resistência dos materiais? A amálgama de destroços do corpo?

 

- Porquê as cinzas no mar? Por ser o céu que a gravidade nos permite?

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publicado às 14:25



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