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Pior que o Acordo Ortográfico

por fernandodinis, em 27.05.15

A Maria do Rosário Pedreira no seu blogue Horas Extraordinárias lembra-nos da adaptação que o Vasco Palmeirim fez de uma música dos D.A.M.A. A letra adaptada confere o quão mal se fala o Português, gravidade maior do que algumas das alterações do Acordo (com o qual eu estou em desacordo).

Parece-me que a escolha de uma música dos D.A.M.A. não tenha sido inocente por parte do Vasco Palmeirim (mesmo que com eles a tenha cantado). Contudo, foi aquela banda como poderia ter sido qualquer outra que neste momento enche as grelhas das rádios nacionais.

Gostava de salientar que escrevo este texto sob o ponto de vista de músico. Há uns anos, as bandas portuguesas cantavam maioritariamente em inglês, alegando que a Língua Portuguesa soava pícara, de difícil métrica e de sintaxe pesada para a maioria das melodias que vagueavam entre o Pop e o Rock; fazendo crer que se caía num certo saco Popular (num sentido pejorativo) se se cantasse em português. Nunca tal senti nas músicas de José Afonso, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Fausto, Rui Veloso, Madredeus ou Ornatos Violeta, entre tantos outros. Já para não referir a boa poesia do Fado.

O Hip-Hop chegou atrasado ao nosso país, mas chegou em força. Agora e com ele, não há escapatória. O hip-hop faz-se de música, mas sobretudo de letras, e é aqui que nos descobrimos francamente maus. A maioria das letras das novas bandas nacionais é sofrível, redundante, cacofónica, até onomatopaica, tudo em prol da rima.

 

Se foi bom ou mau
Eu já esqueci
E não, não me lembro mais
De trocar as vogais

Sofre, sofre, ao bater do tempo
Às vezes nem lembro, pra não ficar cinzento
O que é feito desses momentos?

 

Excerto de uma letra dos Expensive Soul. Trocar vogais? O que significa isto? Brincar aos ditongos? Ei, oi, ui, au, ão? Pra não ficar cinzento? Mas alguém fica cinzento? Mesmo que seja na intenção de uma imagética poética, não serve, porque nem sequer rima com tempo, lembro ou momentos. Sacrifica-se o sentido pela rima, mas quando nem rima existe, tudo é sacrifício.

Isto é apenas um dos exemplos do tanto que por aí se ouve, e não só no hip-hop, infelizmente.

Nada disto me tira o sono e respeito o trabalho de todos. Apenas constato que os nossos padrões de exigência desceram; que lemos pouco e que tudo tem de ser acessível e simplório (diferente de simples) para que tenha aceitação. Isso sim é preocupante. Assistir que a massificação do fácil e do atabalhoado é o caminho a seguir.

Deixo um excerto de uma letra do Sérgio Godinho, em que, mesmo sem música, tudo se encaixa e cria magia e nos fascina e nos alimenta intelectualmente. Sejamos exigentes. Espalhem a Notícia.

 

Espalhem a notícia 
do mistério da delícia 
desse ventre 
Espalhem a notícia do que é quente 
e se parece 
com o que é firme e com o que é vago 
esse ventre que eu afago 
que eu bebia de um só trago 
se pudesse

Divulguem o encanto 
o ventre de que canto 
que hoje toco 
a pele onde à tardinha desemboco 
tão cansado 
esse ventre vagabundo 
que foi rente e foi fecundo 
que eu bebia até ao fundo 
saciado

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publicado às 10:47


11 comentários

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De Vanessa a 27.05.2015 às 11:09

Já não dou muito pela música portuguesa das bandas mais novas. Ouve-se, mesmo que a letra não preste, faz ritmo. É a única coisa que conseguem, porque não fica na memória pela letra.
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De Makiavel a 28.05.2015 às 09:16

Contrapor letras dos D.A.M.A. ou mesmo dos Expensive Soul a qualquer letra do Sérgio Godinho remete-me para a caça às moscas com carabina, tal é a desproporção dos comparados.
Dou apenas como exemplo de bons letristas da actual música portuguesa, nomes como Márcia, B-Fachada, Samuel Úria, Capitão Fausto, entre muitos outros.
A actual música portuguesa está bem de saúde e recomenda-se. Já as rádios (e os radialistas) responsáveis pela sua divulgação é que deixam muito a desejar.
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De Rodrigo Neves a 28.05.2015 às 10:55

Quanto ao hip-hop aconselho-o a ouvir A Mulher do Cacilheiro, Lupa, Sereia Louca e Jugular, da Capicua. o hip-hop portugues nao e so o que des
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De Rodrigo Neves a 28.05.2015 às 10:55

Quanto ao hip-hop aconselho-o a ouvir A Mulher do Cacilheiro, Lupa, Sereia Louca e Jugular, da Capicua. o hip-hop portugues nao e so o que des
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De Quarentona a 28.05.2015 às 11:46

Subscrevo as palavras do MaKiavel, recomendo a Antena 3 para ouvir boa música portuguesa, cantada em português
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De Makiavel a 28.05.2015 às 13:12

Rádio Radar, 97.8, é melhor.
Tem uma rubrica diária, chamada Agência Lusa, dedicada às canções em português que vão saindo.
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De João Carlos Reis a 28.05.2015 às 12:36

Prezado Fernando,
como é contra o aborto, não leve a mal este meu reparo, mas na frase «... se se cantasse em português.», o vocábulo «português» também deve ter inicial maiúscula, de modo a constar a importância e Nobreza do Idioma Português, ao contrário do que faz o actual aborto...
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De V. Trabuco a 28.05.2015 às 15:21

Como já aqui escreveram, o actual estado da música portuguesa, ou em português (como queiram) é da culpa das rádios nacionais. Veja-se o caso da RFM , aquilo mais parece a RNA (Rádio Nacional de Angola)... Porque não passam música de portugueses (quase nenhuma) e agora "fartam-se" de passar música de músicos angolanos??
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De m. a 28.05.2015 às 15:47

Sou uma enorme apreciadora de hip-hop nacional, coleciono cd's e estou muitas vezes presente em concertos de hip-hop.
Compreendo a preocupação com a língua, mas considero uma generalização aquilo que aqui li.
Como disse e muito bem o hip-hop chegou tarde a Portugal, por volta dos anos 90, um estilo com a sua génese na rua, nos bairros sociais dos Estados Unidos onde pouca cultura chegava. Entretanto disseminou-se e chegou até aqui.
Aquilo que mais gosto relativamente ao hip-hop é a liberdade que um rapper tem para se expressar. É um estilo livre, onde palavras são mal usadas e também onde são usadas palavras más, onde a principal preocupação é transmitir a mensagem que se pretende.
Para mim, o Sam The Kid que é uma das maiores referências do bom hip-hop português, consegue fazer rimas incríveis e depois também algumas vezes conjuga mal um verbo. Numa entrevista que vi, ele foi questionado relativamente a isso e ele disse que é assim que ele fala e portanto, é assim que escreve, não vale a pena estar a tentar arranjar uma maneira correta de se dizer algo se, fazendo isso, está a fugir àquilo que ele é.
Eu concordo que em alguns casos há quem faça tudo pela rima. Mas D.A.M.A ou Expensive Soul não é o hip-hop português.
Aconselho-o a ouvir Capicua, Sam The Kid, Valete, Dealema, Deau, W-Magic (e podia ficar aqui o dia todo)...
O hip-hop continua a estar muito ligado às ruas, é de fácil acesso o que o diferencia dos restantes estilos. Quer dizer, eu estudei música muitos anos, o meu irmão é pianista, tive a sorte de ter uns pais que me proporcionaram isso. O hip-hop não requer nada que não esteja dentro de nós: a palavra. E isso faz com que haja pessoas que o conseguem fazer não tendo tanto conhecimento.
Há hip-hop muito "bem falado" que não tem nem nunca teve o seu lugar nas rádios, e isso para mim é o mais triste.
Em certa parte posso concordar com o seu texto em alguns aspetos, mas peca muito na generalização.
Eu gosto muito da língua portuguesa, e é precisamente isso que me faz gostar tanto de hip-hop. É quase como uma poesia falada/cantada, pouco repetitiva, onde existe uma clara intenção de expressar os sentimentos/opiniões/ideais sem ter de obedecer a qualquer tipo de padrão, e por isso, onde sobretudo, existe liberdade para se dizer o que se quer e da maneira que quer, sem a preocupação exagerada de "Será que isto vai vender? Será que as pessoas vão gostar?", porque viver do hip-hop, em portugal, é algo muito recente e ainda muito pouco usual de se ver.
Talvez alguns façam tudo pela rima, mas existem imensos que não o fazem.
Cumprimentos.
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De Aquele Tipo a 28.05.2015 às 23:21

O que me ri.
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De Aquele Tipo a 30.05.2015 às 20:36

Eu até deixo-vos aqui uma outra cantiga do Sérgio —mais propicia ao tema:

«Fui com a quadra popular
à procura da restante
quando o polícia de longe
disse: venha aqui um instante
Temos aqui uma outra
não sei se você conhece
desrespeita autoridades
e diz o que lhe apetece
Tem uma rima forçada
e palavras estrangeiras
e semeia a confusão
entre as outras prisioneiras»

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