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A desculturação do Silêncio

por fernandodinis, em 03.04.17

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Tinham-se apaixonado um pelo outro só Deus sabe porquê. Mas quando entraram em contacto directo mútuo (…) a companhia exibicionista e ruidosa dela fazia-o retrair-se num embaraço (…). E a minha simpatia ia sempre toda para o meu pai (…) pareço-me muito com ele, e nem um bocadinho com a minha mãe. Lembro-me de como, bem pequenina ainda, eu me encolhia toda ante a sua exuberância. Com o seu feitio, ela constituía uma permanente invasão da privacidade de cada um.

A Ilha, Aldous Huxley

 

Que força impele variadas pessoas serem assim? De onde provirá a energia que alimenta este exibicionismo constante? Não será apenas uma conduta que as fortalece socialmente? O que significa afinal o silêncio para todos nós e para estas pessoas em particular?

Todos teremos alguém conhecido com estas características: um parente que monopoliza o jantar de família, um amigo que só os seus problemas são significativos e urgentes, um colega de trabalho que ruidosamente tagarela, aparentemente imerso numa exaltação que não lhe permite ter o discernimento de que poderá incomodar o trabalho dos outros; ou ainda, que as suas piadas serão sempre bem aceites, pois se não fosse o seu humor, todos estariam sorumbáticos a trabalhar. Há em todos estes casos uma auto-promoção, uma assunção de que os seus discursos não só são válidos como necessários aos demais. São pessoas que requerem a atenção constante de quem os rodeia.

Num mundo electrizante, o silêncio tornou-se um dos bens mais preciosos dos tempos modernos. Mas como olhamos para este bem, se afinal tantas pessoas fogem dele? Existe uma errada aculturação do silêncio. Lembremo-nos dos locais onde ainda crianças nos pediam silêncio: na missa porque deus ouve, nos cemitérios para não incomodar os mortos, na escola para não ficarmos de castigo, em casa a brincar porque o pai lê o jornal e depois ralha. O silêncio sempre nos foi pedido em forma de obrigação e sob pena de um castigo, de maior ou menor consequência.

Seguindo o excerto de Huxley “com o seu feitio, ela constituía uma permanente invasão da privacidade de cada um”, há algo mais forte do que incomodar os outros devido a uma visão errada do silêncio. Estas pessoas sentem monotonia quando deveriam sentir tranquilidade, sentem vazio (e este vazio ameaça-as) em vez de completude. Existem portanto más recordações do silêncio para que exista a necessidade constante de o desvirtuar e evitar.

O homem social é ginasticado para ter uma conversa fluente. Um vendedor vende mais se falar com eloquência. Um locutor de televisão é exímio quando consegue improvisar palavras para se atingir a hora certa do bloco de publicidade. Não importa afinal a mensagem propriamente dita, é sim imperioso que os silêncios não ocorram. Congratula-se a pessoa que esteve a fazer conversa como uma pessoa simpática, e castiga-se o silencioso que parece estar sempre a observar os outros como carrancudo. Voltando à infância, recordem-se do famoso “Estás tão caladinho, só podes estar a tramar alguma!”

A grande dificuldade em muitas pessoas meditarem é, logo à partida, o não aceitarem o ruido que o silêncio tem. Não se trata de contradição. Quando se medita - a máxima procura consciente do silêncio - a nossa concentração foge facilmente da respiração para o fugaz desenrolar de pensamentos, tantos, que se torna difícil abstrair-nos deles. É como se, portanto, eles gritassem ao ponto de perturbar a nossa meditação. E não serão estes pensamentos a escondida razão para que muitas pessoas não consigam meditar? Para que, finalmente, fujam do silêncio que os despoleta, evitando um confronto entre as vozes do interior (involuntária) e do exterior (deliberada/forçada)?  

Ainda que para muitos o silêncio seja tristeza e melancolia, para outros será alívio e bem-estar. É tempo de interiorizar uma nova importância ao silêncio e elevá-lo a uma condição indispensável à quietude prazerosa.

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publicado às 11:24

Saber Parar

por fernandodinis, em 27.01.17

 

É cada vez maior o número dos famosos casos de 'burnout', uma designação moderna do esgotamento e consequentes estágios de depressão. Parece que as pessoas só acordaram para este 'acontecimento' quando o padrão se instalou nos gestores de topo e de altos cargos directivos. Como se este problema (doença?) só através deles ganhasse importância, ou pelo menos, uma maior disseminação da sua existência e consequente aceitação social. A palavra Mindfulness não 'magoa' tanto como terapia, meditação ou 'ajuda psicológica'. Mas não são estas questões semânticas que me preocupam. Temos um verdadeiro problema actual. 

Há que saber parar. Grandes empresas mundiais já dispõem de salas dedicadas à meditação. A Google é uma delas, sendo um dos executivos de topo, Chade-Meng Tan, o próprio orientador dessas meditações.

Medito há 8 anos. Experimentei ao longo deste tempo as mais variadas vertentes. Meditações hindus, tibetanas, ayurvédicas, zen, yoguis, activas, xâmanicas, etc... Na verdade, todas elas têm muito em comum e a sua finalidade é a mesma. Não acho que exista necessidade em percorrê-las todas para o mais importante: Meditar. Não é sequer necessário (ao contrário do que muitas pessoas pensam) aderir a esta ou àquela religião. Meditar é respirar, é concentrar a nossa atenção para que não dispersemos, é virarmo-nos para dentro e conhecer melhor a nossa essência. Os resultados são tão visíveis como aqueles para quem decide praticar um desporto. Há estranheza, curiosidade, desenvolvimento e paixão. Exercitar o nosso físico é fundamental, assim como a nossa mente, treinar a nossa concentração e conhecer os nossos limites para que saibamos estar atentos aos sinais internos do nosso corpo. A meditação é também isto.

Pessoalmente, identifico-me com a meditação Zen. Durante os longos minutos de imobilidade, é necessário estarmos totalmente confortáveis. Para quem não conhece, existem estas almofadas, chamadas Zafu, que são óptimas para nos sentarmos no chão, confortavelmente, cruzando as pernas e deixando assentar todo o tronco. Permite as costas direitas, as pernas relaxadas (evitando as dormências musculares), e uma respiração fluída. Para quem precisa 'Saber Parar', é um bom começo. Assim como comprar ténis novos nos dá vontade de correr e treinar, esta almofada pode ser um verdadeiro desbloqueio a esta prática. Ficam algumas sugestões. Cliquem e vejam as características.

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publicado às 12:31

Síndrome Micra

por fernandodinis, em 20.01.17

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Já viram o novo modelo Micra, da Nissan? Parece que a marca quer nesta quinta geração passar despercebida à terceira idade. 

Sem querer ser mauzinho, digam lá se não concordam, que se existe público-alvo bem definido no mercado automóvel é o dos Micras?

São evidentes os sintomas: o carro que serve para ir às compras aos sábados de manhã, à missa aos domingos e às consultas no hospital. Ponto. O resto do tempo? Garagem com ele. 

O carro que a senhora reformada diz ser 'jeitosinho', que o Toyota Corolla do marido até  é um carro óptimo, mas este é mais maneirinho para fazer os 3,5 km até ao mercado ou ao Lidl às quintas de manhã. O carro cujas palas de protecção solar estão sempre para baixo e ao serviço, mesmo que esteja noite cerrada. O carro que dá de comer a muitos e muitos bate-chapas do nosso país, carimbados com todos os pilares e quinas das garagens. O único carro capaz de fazer a A5 a 65 km/ h na faixa do meio, para evitar aquelas saídas abruptas que não existem. Não é para todos. Há que ter perfil para conduzir um Micra. 

Mas também é o primeiro carro de muitas raparigas de 18 anos, oferecido pelos pais, porque agora já precisa para ir  para a faculdade estudar Farmácia. São comprados à vizinha idosa do lado, que já não conduz e que estão num estado irrepreensível, nunca tendo mais de 67000 quilómetros, sempre assistidos na marca, embora já tenham levado 89 discos de embraiagem.

O novo modelo está a pensar no segmento B, de linhas arrojadas, cores psicadélicas e consola central que parece um tablet com as apps inteiras da Google Play. Estão claramente a piscar o olho à malta dos Yaris! E arriscam-se a que este mercado passe para os Hondas Jazz.

Estamos prestes a perder um entretenimento essencial para suportar as filas de trânsito. Façam vocês mesmo a experiência, enquanto eles andam por aí, e espreitem para dentro de um Micra e comprovem. É certinho.

 

Ps: para que não me levem a mal, existem outras síndromes. Isto não é só dos Micras. É a dos Polos tunnings da geração 90 a ouvir hip-hop, dos Smarts inquietos de trintões executivos que estão atrasados para a reunião da sua start-up, dos BMW’s sem piscas que esticar o braço só para passar cartões de crédito e das carrinhas Golf familiares com motores potentíssimos sempre a assapar: porque os meninos casam, têm filhos, mas não perdem a guelra. Ora comprovem lá.

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publicado às 15:01

Ainda sobre os PALOP na CPLP

por fernandodinis, em 04.01.17

Nos primeiros dias do mês de Janeiro encontramos, um pouco por todo o lado, estudos, resumos, listas, números, referências que ilustram e sintetizam algumas conclusões do ano anterior. Há listas de obituários, dos melhores discos, livros, filmes, do número de vítimas de violência doméstica, números de armas apreendidas, marcas mais vendidas, shares das estações televisivas, enfim, escreveria uma lista tão extensa quanto a extensão das listas existentes.

Uma dessas listas, inócua mas ainda assim sintomática, é a das palavras mais pesquisadas no Priberam. O dicionário digital é cada vez mais utilizado, e ainda bem, e a sua versão app para smartphones possibilita mesmo uma consulta imediata, sempre que surge uma palavra nova ou de sentido rebuscado que queiramos clarificar.

Nesta notícia encontramos a lista das palavras mais procuradas, não só em Portugal mas também nos países pertencentes à CPLP. Achei muito curioso que na Guiné Equatorial, um país onde nunca se falou nem se falará Português, a palavra mais procurada no Priberam tenha sido, precisamente, PALOP. Desconheço os números de literacia dos habitantes da Guiné Equatorial, mas é tão confuso para nós entender a presença desse país na CPLP quanto é para eles próprios serem considerados um PALOP. Ter-lhes-á suscitado tantas dúvidas que foi mesmo a palavra mais pesquisada.

Há coisas que, à primeira vista, parecem forçadas e inexplicáveis e que não transmitem a transparência necessária para que sejam compreendidas. Talvez seja essa a intenção. Um país ditatorial, onde 15% das crianças morrem antes dos 5 anos e 78% das pessoas vive com menos de um dólar por dia, revela problemas humanitários gravíssimos. Poderia ainda falar da vida faustosa do filho do presidente, Teodorin Obiang, qua ainda esta semana não compareceu a tribunal em Paris por corrupção e lavagem de dinheiro, à semelhança dos processos que já enfrentou nos EUA e na Suíça, mas estaria a desviar-me do assunto.

Guiné Equatorial é um PALOP e eles estranham. Assim como nós estranhamos o porquê de fazerem parte da CPLP.

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publicado às 09:29

Operculicarya

por fernandodinis, em 23.12.16

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 © Fernando Dinis - All rights reserved

 

As polpas dos dedos auscultam a camada de musgo, dançam num leve roçagar até chegar à terra. Rego-a devagar, quase gota a gota, vendo a água escoar-se pelas inúmeras fissuras. Volto a regar. Há espanto por algo vivo que à primeira vista está sempre inerte. E esta dedicação emociona-me, tem a capacidade de apaziguar-me. De manhã, bem cedo, abro a janela para que os primeiros raios de sol façam revibrar as suas folhas envernizadas. Tento imaginar como seja a mecânica das raízes, o entrelaçado de línguas que se humedecem de água e a tragam até aos filamentos mais distantes, a seiva a distribuir vida por labirintos. Torno-me delicado, atencioso, ainda mais silencioso.

Depois todo eu imerso a conduzir, as estradas ainda molhadas, o nevoeiro na parte baixa da cidade em que as copas de inverno conseguem rasgar e se recortam no horizonte aproximado. O nome das árvores como um mantra: plátano, acácia, ulmeiro, bétula, freixo, jacarandá. Uma força encantatória embala-me sílaba a sílaba. A comoção do que existe para lá de nós, ou a emoção de nós pertencermos a algo mais profundo. Imagino a imensidão nuclear do corpo humano, o ar inspirado, pulmões, brônquios, bronquíolos, uma sucessão de caminhos intrincados mas profusamente sábios. Entendo o chamamento da terra, os nossos setenta por cento de água, o que seja secarmos com a idade, até cair. Um fruto frágil de flor que passou despercebida. E na expiração um pouco do passado que nos sai com alívio. É esse o mistério? O de nunca se olhar na direcção correcta?

Tenho uma árvore no parapeito da janela.

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publicado às 11:31

Desligar o Mundo de Nós

por fernandodinis, em 20.12.16

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Em tempos tive um professor de Ayurveda que afirmava prescindir de ver notícias. Era russo de nacionalidade e tinha passado por vários países, e diferentes realidades, a lecionar e a trabalhar em clínicas de saúde. Era daquelas pessoas que, por tantas vezes mudar, lhe seria indiferente saber se estava em Portugal, na Hungria ou na Índia. Interessava-lhe o Humano – e o Humano existe em qualquer parte do mundo -, o bem-estar do próximo mas, principalmente, o bem-estar de si mesmo. Por diversas vezes nos dizia que trocava os noticiários por séries de comédia. Era assumidamente desligado do mundo, mas profundamente conectado com o próximo. Dizia-nos com alguma frieza: «Posso mudar os males do planeta? Dificilmente. Posso ajudar quem me rodeia? Claro que sim. Para quê sujar a minha mente com problemas pelos quais nada posso fazer? É gastar energia desnecessariamente.» O que à primeira vista nos parecia uma posição insensível, escondia uma sabedoria e uma ferramenta importantes para os dias de hoje.

Quem ontem não se sentiu impotente ao constatar que um camião pode invadir uma avenida repleta de pessoas inocentes e atingi-las sem piedade? Quem não se inquietou e chocou com as imagens de uma pessoa a ser abatida a sangue-frio por um polícia (figura que na sua génese nos dará segurança), em plena transmissão televisiva?

Ontem ocorreu-me as palavras ríspidas do meu antigo professor, quase palavras de desdém por um mundo cada vez mais difícil de compreender e distante do que possamos nós fazer por ele. Escapa-nos das mãos esta realidade feroz e enlouquecida que nos perturba e nos magoa. Infelizmente, olhamos para a História e concluímos que tempos conturbados e violentos são algo que nunca faltou. A nossa pequenez individual é inconsequente a uma estrutura encadeada há centenas e centenas de anos. Há que confiar nos que realmente têm esse poder e esperar que decisões acertadas e corajosas nos tragam fases melhores, dias melhores, anos melhores.

Ontem senti-me como o meu professor, e desejei apenas esquecer-me do mundo, ver o Seinfeld desde a primeira temporada, desencorajar a mente de reflexões, reflexões repetidas infinitamente que em nada me apazigua. Ontem senti-me que desligar-me da realidade é uma resposta tão insensível e cobarde quanto acertada e libertadora.

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publicado às 11:16

Deixem Passar!

por fernandodinis, em 15.12.16

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Vamos lá esclarecer de uma vez por todas este assunto. Onde está o Código de Conduta no que concerne à utilização das casas-de-banho das nossas empresas? Sabem aquele mini corredor que nos conduz do open space às portas de acesso aos urinóis, às sanitas, aos lavatórios com espelhos? Esse corredor não é um corredor: é o limbo entre o paraíso e o inferno, ou o bardo da primeira fase de morte de um budista (como queiram, só não me falem nos jainas, que estes wc’s não dispõem de poliban e chuveiro).

Vários mecanismos precisam de ser oleados no que concerne a este corredor. Em linguagem empresarial, há que agilizar os fluxos de pessoas no vai e vem, no entra e sai, mas principalmente quando não se entra e nem se sai. Aqui sim, preside a grande lacuna, e só quem já sofreu na pele (ou na bexiga, ou no intestino), entende a minha consternação e o porquê de estupidamente estar a escrever sobre este assunto.

Com as mulheres estamos esclarecidos. Há um pudor latente na movimentação dos corpos, um sorriso de grande respeito e quase nenhuma palavra trocada. O corredor assume nesses momentos uma nave de igreja manuelina, silenciosa e apenas alumiada por uma luz rarefeita que trespassa vitrais poeirentos.

O grande problema é com os homens. Com os homens é uma selvajaria. Desde expressões «fax para tóquio?», «mudar água às azeitonas!», «cuidado com a cerâmica…», povoam os diálogos de quem se cruza e segue o seu caminho. Ouviram? Segue o seu caminho! É aqui que são precisas as leis. Apenas conheço uma, tacitamente utilizada, para o bem de todos: Nunca se cumprimenta com apertos de mão um colega com quem nos cruzemos no corredor do inferno.

Agora o crucial problema: Homens que saem da casa-de-banho, com um sorriso de orelha a orelha, aliviadinhos, e decidem conversar com quem quer entrar, e que, geralmente, vem com o rosto rubicundo, o andar afectado, e uma pressa latente em cada movimento. Isto não se faz, meus amigos. Será preciso ser tão insensível que não compreendam que quem quer entrar na casa-de-banho o deseja como se fosse a última coisa a fazer enquanto vivo? E por azar, apanha-se sempre aquele colega com quem partilhamos gostos musicais:

 - E o novo dos Metallica?

- Ainda não ouvi! (mesmo que o tivéssemos ouvido).

- Eh pá, está na onda do Master e do And Justice! Grandes introduções, muito instrumental, solos a gastar. Os gajos finalmente conseguiram e viste-os no Jimmy Fallon? Com os instrumentos da Chicco? Eh pá, mas ouve o disco, vale mesmo a pena e…

- Ok, vou ver se ouço.

E os que partilham o gosto pela corrida?

- Tens treinado?

- Nem por isso (é claro que treinamos, mas naquele momento só queremos desovar como um salmão ao atingir a nascente do rio!)

- Eh pá, tenho treinado a sério! Tempos de 4,40! As meias de compressão ajudam, mas também não ajudam assim tanto! Na meia-maratona experimentei os Boost, mas acho que sou muito pesado para aqueles ténis. Os Asics são feios, os gajos borrifam-se para o design, mas eles sabem o que fazem! Tenho passada de pronador, sabes? Os reforços laterais são essenciais! Foste à da EDP?

- Não, estive constipado! - E nós à espera, a tentar contornar o colega, a pessoa, o diabo!!

- E a São Silvestre? Essa não podes perder!

 - Sim, essa não perco!

E somos quase sempre rudes e impiedosos ao virar costas e entrar na casa-de-banho. Se for preciso, esse colega ainda pensa de nós:

- Bolas! Que parecia levar o fogo no cú!

Amigos, se já fizeram o vosso serviço, não sejam maçadores nesse mítico corredor. Até porque, na grande maioria das vezes, esse vosso colega que vai à rasquinha, senta-se ao vosso lado o dia inteiro. Mas aí já estão caladinhos, não é? A mostrarem-se muito compenetrados no vosso serviço, não é? Caladinhos para o chefe pensar que dão o máximo, não é? Cagões…

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publicado às 15:56

À Espera de Outro Mundo

por fernandodinis, em 05.12.16

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E se um dia a nossa forma de ver o mundo deixar de ser hipócrita? Degelo, incêndios, terramotos, subida do nível da água, seca extrema, fome, violência, guerra, religiões fanáticas, doença, raptos, violações, tráfico de droga, de orgãos, de pessoas, crianças sequestradas, discriminação, ódio entre povos, ataques nucleares, refugiados, assassinos, assassinatos, pessoas que fogem da guerra, pessoas que fogem da guerra mas que morrem afogadas, pessoas que fogem da guerra para iniciar novas guerras, monges budistas a imolarem-se pelo fogo, acidentes de viação, violência doméstica, violência psicológica, ditaduras, crimes cibernéticos, terrorismo, homens-bomba, mulheres-bomba, crianças armadas numa escola, poluição, aquecimento global, exploração económica, analfabetismo, pedofilia, prostituição infantil, abuso de poder, peculato, racismo.

Como funciona a nossa vida ao passarmos ao lado de tudo isto? Quão ardilosa é a nossa inteligência para que a realidade não nos afecte ao ponto de prosseguirmos na normalidade das nossas vidas? E o que seremos a mais do que outro ser humano para que tenhamos o privilégio de viver a vida que as sociedades inventaram para nós, quando noutros pontos não muito distantes não existe sequer a mínima dignidade humana?

Todas estas questões são colocadas de forma dissimulada, subliminarmente, no novo romance de Don Delillo. O famoso Zero K, nem sequer corresponde à sigla militar Zero Killed, mas sim ao grau zero na escala Kelvin, 270 graus Celsius negativos, utilizados na criopreservação de corpos. A criogenia como esperança de se regressar quando a ciência tiver respostas para as doenças que hoje nos abate. Ou a criogenia como possibilidade de suicídio, a morte antecipada, porque a realidade de hoje é insuportável? Confundem-se os conceitos, ou estão tão claros que os desejamos afinal dúbios? Um homem milionário que mostra ao seu filho a possibilidade de fuga de um quotidiano fingido e oco de sentido. E o que mais precioso podemos deixar aos nossos filhos do que a esperança de vida num mundo posterior que não seja este? Haverá algo de mais legítimo do que querermos proteger os nossos filhos? Quanto vale perante estas permissas todo o infindável dinheiro de um milionário? Mas nada disto está à mostra. A escrita directa e acutilante dissimula o essencial, contrapondo leitura e entendimento. Um desafio inteligente ao leitor, e conclusões exigentes a qualquer ser humano. Enquanto isso o mundo rola sobre si mesmo, e apesar de conhecermos o fim que nos espera, há esta capacidade de seguir em frente.

Fica a assinalável frase que se transcreve:

"Metade do mundo está a remodelar a cozinha, a outra metade está a morrer à fome."

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publicado às 09:32

Gostar de Viver com Menos

por fernandodinis, em 28.11.16

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Uma das poucas vantagens em mudar de casa várias vezes é a de aprendermos a viver com menos. Menos objectos, menos mobiliário, menos livros que temos a certeza de nunca os ler, menos televisores, menos, menos, menos.
Ao longo dos anos, desenvolvemos o gosto pelo minimalismo, talvez porque cheguemos à conclusão de que precisamos de muito pouco para sermos felizes. O momento de viragem é quando o ruído visual já nos incomoda e descobrimos que já não nos identificamos com o célebre caos organizado. Ter um sítio certo para as poucas coisas que possuímos é um descanso mental que considero essencial para quem se dedica a muitas actividades. Cedo um pouco nas estantes dos livros e na secretária. Posso desarrumar toda uma sala para fazer uma fotografia, com iluminação, tripés, reflectores, panos, objectivas, mas quando termino, o gozo em ter o devido lugar para todas as coisas faz sentir-me bem.
Em relação à música, já tive casas em que tinha piano, teclados, guitarras, amplificadores, computadores só para música com cabos por todos os lados, até que cheguei à conclusão que essa permanente oferta visual me fazia dispersar.
Desde 2006 que me dedico totalmente ao piano. Uso pianos digitais por serem mais baratos, silenciosos e, principalmente, por estarem sempre afinados. Assim, arrumei tudo o resto, a nível de experiência, e nunca mais lhe mexi.
Esta ausência de objectos obriga-me, no bom sentido, a focar no que verdadeiramente importa, e a não gastar energias em algo que não irá adiantar em nada na concretização dos meus objectivos. Isto pode soar a uma inflexibilidade militar, mas interiorizando, é muito zen e apaziguante.
A foto acima revela o meu actual espaço de trabalho. A musa, o cadeirão para ler e um simples piano para compor. É importante escolhermos o que queremos na nossa vida, mas tão importante quanto isso, é sabermos dispensar o que não nos interessa. Acreditem que a leveza compensa.

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publicado às 08:45

O Natal não é quando um homem quer

por fernandodinis, em 24.11.16

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Se existe marca cuja publicidade eu sigo religiosamente é a Intimissimi. Talvez a partir do famoso vídeo onde a Monica Belluci se desdobra em inúmeras personagens – assim uma espécie de manjar paradisíaco para a nossa mente, qual restaurante cerebral com 5 estrelas Michelin –, desde a empregada doméstica submissa à mamã confiante e emancipada, da motard rocky à esposa que se descobre enganada. Todo o vídeo seria de um bom gosto assinalável, não fossem os criativos terem a ideia de meter lá o José Fidalgo a amarfanhar-se dessa espécie divina, profanando-a à banalidade dos comuns mortais, terrenos e coise.

Conclusão, ficou a pensar que todos os portugueses eram assim e de cabeça perdida entrou na primeira Remax para comprar uma casa em Lisboa. Agora já entendeu que temos adeptos do Benfica, homens que usam bolsas à cintura e que o glamour de Lisboa resume-se a uma passeata de domingo pelo Colombo e o Dolce Vita Tejo. Vão ver, é só o mercado imobiliário dar a volta e vende a casa em dois segundos.

Tudo isto para falar da actual publicidade, mais propriamente das imagens de Natal. Então Intimissimi? Onde está a vossa criatividade? Voltamos à lenga-lenga da Mamã Natála e aos ursos de pelúcia e aos saltos altos vermelhos com lingerie? A sério? E aquele cortinado de fundo a lembrar o mais amador set de filme para adultos? Que parte ainda não entenderam que Natal não combina com sensualidade? Natal é filhós e rabanadas e bacalhau cozido e vinho a torto e a direito! Não há cá espaço nem onda para se estrear uma lingerie e apimentar a relação. É impossível. É a janela de tempo errada. Por isso se diz Noite de Consoada, e não Consolada. Não combina, principalmente com as meias e pijamas que os homens recebem. Ficamos claramente em desvantagem. Toda a nossa autoestima e confiança resvala pelo presépio abaixo. Até um José de barro na manjedoura, a fazer contas à vida sobre como apareceu ali o puto, terá mais pujança que nós nessa noite.

Regressem por favor à vossa génese italiana e glamourosa. Deixem-se de neves e Lapónias e lacinhos de vermelho acetinado. Regressem às imagens a preto e branco, aos push-up’s e às bralettes e aos balconettes, que a nossa imaginação trata do resto. E quando a nossa imaginação começa a trabalhar, não existe impossíveis. 

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publicado às 12:41


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