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Contos #5

por fernandodinis, em 16.10.14

- E do que falavam? - perguntou o meu personagem, sempre com os olhos atentos aos meus movimentos.

Eu continuava a fazer malabarismo com as três bolas, pretas e brancas.

- De tudo um pouco. Do curso horrível que ela estudava com esforço, por exemplo…

Sabia claramente que esta resposta não lhe era suficiente. Experimentei passar uma das bolas por baixo da perna direita, e com sucesso, continuar o movimento original.

- Bravo! Vejo que foi uma boa professora. Mas diz-me. Estudava filosofia, ouvia Penguin Café Orchestra, e que mais?

Eu sorri satisfeito pela sua curiosidade. Não podia dizer que me desagradava entrar no terreno pantanoso das memórias, tanto para mais dentro de uma ficção, a primeira vez que acontecia. Idealizava tanto os meus personagens que acabava por entabular diálogos com eles, num qualquer lugar recôndito da mente. Na verdade tudo se resumia a eu próprio fazer as perguntas mais convenientes para que as respostas fluíssem por si.

- E numa dessas tardes quentes de Primavera, ela começou a ensinar-me malabarismo.

 

 

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publicado às 09:32

Contos #4

por fernandodinis, em 15.10.14

- Há qualquer coisa no teu olhar… Quando me olhas a direito, no fundo dos meus olhos, o teu rosto adquire alguns traços de aflição. Quando tenho diante de mim uma pessoa assim, só consigo pensar em duas hipóteses: um homem com muitos segredos, ou uma criança a pedir desesperadamente ajuda. Há qualquer coisa no teu olhar, e ainda não descobri se o melhor é confrontar a tua verdade ou consolar-te.

- Não poderão ser ambas as coisas – pergunto-lhe. Levanto-me da cama. Estou nú, literalmente. Mas ainda mais nú do que quando me despi. Porque Roma não é parva. Porque Roma é daquele tipo de pessoas que nada lhe escapa, ou talvez seja eu daquele tipo de pessoas que tudo deixa escapar através do olhar. Uma merda.

- Ambas as coisas? – pergunta.

E eu levantado à procura dos cigarros em todos os bolsos do meu blusão. E lembro-me que ficaram esquecidos na mesa da sala, diante dos sofás, onde há duas horas atrás ainda conversávamos, e a ideia de dar uma foda uma incerteza. Saio do quarto para pegar nos cigarros.

- Ambas as coisas? E foges? És afinal a criança assustada que precisa de carinho? De apoio?

Volto a entrar no quarto com um cigarro e o isqueiro nas mãos, que lhe mostro.

 

 

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publicado às 09:30

Contos #3

por fernandodinis, em 14.10.14

Antes do anoitecer, costumo sair de casa e percorrer vagarosamente o molhe até ao farol. Cruzo-me com pessoas conhecidas a quem aceno em silêncio. Ao aproximar-me da linha do mar, vou deixando para trás as ligações com a terra que habito. Gosto de levantar as golas do casaco comprido de inverno, e esconder nelas o rosto, dissimulando um segundo queixo que o avançar dos anos tem tornado mais visível. Finalmente junto ao farol, quase sempre já de noite, acendo um cigarro, sugando com a felicidade culposa de quem adia cuidar da saúde. Mas nos momentos em que o meu raio de visão se resume à imensidão do mar, iluminada alternadamente pelo foco do farol, sinto-me a crescer para dentro. A minha presença na realidade assume-se como um objecto inanimado, desprovido de utilidade. Mas por dentro, sou todo incêndio; a audaz forma como os poetas tendem a ver o estado puro da solidão.

Ardia eu imenso, e portanto, feliz por a minha vida conceder-me instantes de total abandono, quando o inesperado aconteceu. Numa dessas noites, senti alguém atrás de mim. O mar embatia com força, cujo som envolvente me proibiu ouvir a aproximação dos passos. Depois, restou-me apenas a vertigem da surpresa; quando se sente uma presença inesperada bem junto do nosso corpo, duvidando nos primeiros segundos se a pessoa que vemos possa ser ou não verdadeira.

 

 

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publicado às 09:00

Contos #2

por fernandodinis, em 12.10.14

O inspector manteve-se sentado à mesa da cozinha durante muito tempo. Com o telemóvel à sua frente, não conseguia parar de o olhar. Não saberia responder se o olhava com receio ou desejo. Continuou a beber. As horas da tarde avançavam, imprecisas, e apenas a luz proveniente da janela da cozinha alterava o ambiente soturno em que se imobilizava. Olhou para a lata de cerveja que tinha numa das mãos. Não podia considerar-se alcoólico, pensava. Não necessitava de beber assim que acordava; o seu corpo não tremia por bebida; conseguia adormecer estando sóbrio; resistir as horas que entendesse sem ingerir uma única gota. Não sendo portanto viciado, o que o levava a beber de forma tão descontrolada, em certos dias da sua vida?

Olhou para o telefone com a mesma curiosidade com que olhara para a lata de cerveja. Aquele sim, o telefone, era o seu verdadeiro vício. Algo inquestionavelmente potente, capaz de o domar com toda a facilidade. Sabia que não tinha qualquer controlo nele. Não ao telefone enquanto objecto físico, é claro. A sua doença reinava nas conversas que tinha através dele. Nos diálogos intermináveis, nas acusações, nas perguntas, nas manipulações, nas palavras sujas, repletas de teor sexual. Aí habitava a sua mente, pilhada de discernimento, totalmente viciada na peculiar transgressão.

Levantou-se da mesa da cozinha com o corpo a não obedecer à ansiedade do cérebro. Atirou a lata de cerveja para o lava-louças com estrondo. Vestiu o casaco pendurado na maçaneta da porta que dava para o corredor. Pegou no telemóvel e meteu-o dentro do bolso interior do casaco. Confirmou se tinha cigarros.

Saiu para a rua. O lusco-fusco de Outono devolvia à cidade contornos cinematográficos. As luzes amarelas da cidade acendiam mais cedo, quando ainda no céu os últimos azuis davam lugar aos tons violetas escuros. Nas janelas dos prédios surgiam as primeiras luzes. O vento era cortante, as folhas pairavam por todo o lado em voos intermitentes. O inspector apertou o casado comprido que lhe descia até aos joelhos, levantou as golas onde tentou esconder o rosto balofo. Depois, sem ainda saber ao certo o que fazer, decidiu caminhar sem destino.

 

 

 

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publicado às 21:13

Contos #1

por fernandodinis, em 09.10.14

Não há rotina na sua vida, mas usa uma grande agenda onde anota com rigor as horas dos encontros que marca pelo telemóvel. Levanta-se tarde. Depois de um duche rápido, come um iogurte natural e uma peça de fruta. Pega no saco desportivo e vai ao ginásio fora do bairro, por não querer encontrar pessoas conhecidas. Pratica durante quarenta minutos, rodando de máquina em máquina, sem descansar. Quando termina, toma um novo duche no balneário e regressa a casa. Certos dias passa por um hipermercado, também distante, e faz todas as compras necessárias. Almoça pratos resumidos a vegetais e pouca carne grelhada.

Entretanto, o telemóvel começa a tocar. O álcool ingerido ao almoço proporciona maior coragem aos homens que lhe ligam. Combina encontros a partir das 15 horas. É importante que estes encontros não ultrapassem a hora de expediente. Anota o nome e a hora na agenda. Novo telefonema. Desta vez, adia para o dia seguinte, o homem protesta, depois acede. Volta a marcar na agenda.

Confirma a única marcação que tem para esse mesmo dia. É um repetente, o que lhe requer maior atenção. Retira um livro de anotações da gaveta da mesa-de-cabeceira. Abre-o no nome indicado e consulta que roupa usou da última vez em que esteve com esse cliente. A ideia é nunca se repetir, alimentar o factor de surpresa, elevar a expectativa. Gosta de pensar que são estes pormenores que garantem a fidelidade de alguns clientes. Nunca se apaixonou. Esquece os nomes deles breves minutos após o serviço. De imediato mete para lavar as roupas usadas, e finaliza com outro duche.

Passam trinta minutos da hora combinada, e o homem sem aparecer. Ela caminha entre o sofá e a janela, esperando-o. Olha para a rua e, sem sucesso, tenta adivinhá-lo no meio das gentes que circulam. Senta-se por fim no sofá, confortável, de pele, mas nem por isso consegue sossegar-se.

 

 

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publicado às 15:38


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