Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Zen e a Arte de Correr

por fernandodinis, em 22.11.16

72c7888403ed601fac32e27afc9adfea.jpg

Se há dois anos atrás me dissessem que eu iria ser capaz de correr 10 Kms, treinar três vezes por semana, cinco, sete, dez quilómetros, eu não acreditaria. E só nesta expressão, eu não acreditaria, se revela a grande magia da Corrida. A capacidade de mudança existe dentro de nós, só há que procurá-la.

A minha constituição física sempre foi muito frágil, talvez porque os meus únicos exercícios físicos se resumissem a caminhar a uma biblioteca para requisitar livros ou ao treino de dedos do famigerado Hanon, nas aulas de piano. Mexer corpo, pernas e braços? Nunca! (Excluindo algumas fugas de quintais e janelas de rés-do-chão, se porventura algum pai das minhas colegas chegasse mais cedo do trabalho. Na verdade, posso ter sido o pioneiro do Parkour sem o saber).

Não fui à tropa. Era enfezado, magríssimo, e passei metade da minha existência a não poder dar sangue por não ter o peso mínimo exigido dos 50 Kgs. Comecei a fumar aos 17 anos e deixei aos 26. Recomecei a fumar aos 32 e deixei aos 37. Todo o meu historial de saúde física apontava para um desaire anunciado. Curiosamente, sempre disse para mim mesmo que gostaria de ter 40 anos e ser saudável. E não é que consegui? Hoje, sinto-me muito melhor do que quando tinha 20 anos! (Não é difícil, visto que nessa idade andava sempre de ressaca…)

Agora a sério. A corrida transforma-nos rapidamente. Dói, dói mesmo. O corpo queixa-se, e é necessária uma grande força de vontade. Ter alguém com quem treinar ajuda muito. Foi fundamental partilhar com a minha mulher a paixão que ela sente em correr. Hoje consigo entendê-la verdadeiramente, e neste domingo senti finalmente a excitação em participar numa prova.

A beleza da corrida, ao contrário do que muita gente pensa, não se trata de competir com outras pessoas. A competição existe, mas internamente. É quase Zen, é quase meditação. Se existe uma palavra que defina bem os primeiros tempos de correr é Humildade. Ser humilde e aceitar os nossos limites, respeitar o nosso corpo, ouvi-lo, conhecê-lo. Ter consciência de que vamos ter dores mas que também as iremos ultrapassar. A melhor característica que um atleta deve efectivamente ter é humildade.  

Depois vem o deslumbramento. A solidificação da nossa auto-confiança, a persistência, a capacidade de aceitar dias de treino maus, e finalmente, a constante auto-superação que nos inebria. A força e lições que retiramos da Corrida passam a ser aplicadas nas diversas vertentes da nossa vida. E essa é a maior transformação que pode existir, é o melhor que podemos fazer por nós mesmos.

Voltarei a escrever sobre esta inesperada metamorfose e dar-vos o melhor do Gustavo Santos que há em mim.

Na imagem ao alto, eu pelo quilómetro nove. O meu lugar? O meu tempo? O que importa isso se passei a meta a sorrir?

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 09:05


Mais sobre mim

foto do autor



Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D