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#9

por fernandodinis, em 23.02.16

Pouco se falou sobre esse beijo,
apenas que na pele em contraluz pareceu
nascer uma filigrana dos teus lábios
um relevo ténue que só com o tacto mais concentrado
se consegue na ponta dos dedos sentir
e voltar a beijar.

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publicado às 12:27

#8

por fernandodinis, em 07.07.15

O que fazer com este verão no corpo,

sem praias ou rios onde te banhes

e o sol afinal uma luz acesa

no mais escuro dos quartos?

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publicado às 08:49

#7

por fernandodinis, em 09.04.15

E parece que a terra se fecha num anunciado estertor,

ficando o silêncio das coisas mortas, odor a ferro

molhado, a luz diminuta, os corpos salgados pelas ondas.

E que desse fechar invisível, o cerne da terra ferva

magma, para logo explodir por crateras improváveis

porque há tanto imaginário na génese dos incêndios,

tanto crime perfeito no que será ainda pensamento.

Há um raio que nos desce pelos ossos e nos acidenta

por dentro; o córtex uma claraboia para o céu nebulado

e apenas resta muito pouco movimento, arrastados

pela variável força das marés, tudo de borco,

e pergunto como explicar a alquimia das tempestades

sem pensar na vida e na morte?

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publicado às 13:28

#6 Kenya

por fernandodinis, em 07.04.15

Explica-me o regresso das aves, algo capaz

de acender-me brilho nos olhos, desatento que estou

às coisas do mundo, ou me finja cego ao inexplicável.

Sei de mortes que tingem a terra, mortes que ninguém

saberá explicar à criança curiosa, e nesse quarto de

tempo de silêncio, habita a nossa fragilidade,

todo o erro humano. Explica-me portanto o voo das aves

pelos telhados das cidades sempre que a noite

regressa. Terá de existir algures uma possível

resposta a tudo isto. Até no mais livre poema,

até na mais consistente mentira. Mostra-me objectos,

confunde-me com o quotidiano, nomeia meses, que chova.

Diz-me das aves um silêncio sacro em que ganhe fé.

Uma sombra de abóbada, um claustro de hortos secos.

Traz-me infâncias com memórias que perdurem,

o aroma da cera nos corredores dos conventos,

um relógio de segundos sonoros numa tarde ventosa.

Ilude-me o olhar ao que não tem uma explicação possível.

Essas mortes apenas um estoiro ao longe, e a nossa

ignorância em ser um carro despistado no cruzamento.

Que a violência seja apenas esse desconhecimento,

breve, como um impreciso despertar nocturno,

para logo voltar a adormecer.

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publicado às 11:21

#5

por fernandodinis, em 31.03.15

São imagens sobrepostas, os ramos da árvore
perene, sobre a tua pele, tatuagens de sombra,
afinal ramos que no teu corpo quieto parecem veias
em dança, não de sangue mas de seiva, os teus pés
desnudos que o lençol descobre são as raízes revoltas,
linhas de água a procurarem fendas na terra, muitas
sensações antes de qualquer toque. Quero um vento forte
de dezembro, que arrebate os teus ramos, as tuas veias,
e levante o lençol como uma película fina, qualquer matéria
translúcida, e me devolva o teu corpo como uma complexa
matriz de caminhos insondáveis. Quero uma tarde de frutas
adocicadas, lábios pegando na pele, resina, uma perdição
qualquer de poema. O teu corpo frondoso como o tronco a
tingir o firmamento de revoltos veios, oh assombrosa delícia,
o doce permanente dos frutos, uma ponte entre nossa bocas
e um nevoeiro a impedir a noção de distâncias. Esquece
dezembro. Dança assim só na placidez de junho, no sangue
dos morangos apertados entre os dedos. Há calor
para que nem um lençol permaneça nessa árvore, o teu corpo
por inteiro entregue à nudez do que chamámos raízes.
E espraio-me nas folhas, feito vento, todo sensação.

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publicado às 14:04

Dia Mundial da Poesia

por fernandodinis, em 27.03.15

poesia.bmp

poesia1.bmp

 

Fui convidado a ler no Bookpoint da Portugal Telecom, no Dia Mundial da Poesia. Levei comigo o livro Poemas Completos do Herberto Helder. Falei de magia, das frontreiras da poesia, da densidade e textura de certas palavras, sempre longe, muito longe de imaginar que na segunda-feira, três dias depois, o Herberto nos deixaria. Ficou e ficará a sua obra. 

 

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publicado às 19:30

#4

por fernandodinis, em 26.03.15

Há um ofício oculto nestas mãos

utensílios invisíveis, saberes milenares,

ou talvez apenas a indefinida imensidão

do desconhecido. Algo do não explicável

que as guia, constelações, fés, mitos, ou

apenas a urgência da certeza do gesto.

Um acreditar na existência, para lá

do que se envelhece, estação a estação.

Pressentimos a habilidade pela dança no negrume,

tão sábias perante o vazio.

Imagine-se que modelem poemas, aproximações, desencantos.

Acenam ao lúgubre quanto cumprimentam a luz,

acção do pensamento ainda por vir.

Que lhes resta senão vida própria

semente, raiz, ocupação do espaço?

Se acenam existem, se quietas agridem.

Que ferramentas além dos dedos, um a um,

concertados ao que é tocável, em desordem

na vastidão do éter.

O que atingem nos estalos durante o sono?

Um córtex para cada falangeta, se as unhas da matéria

do cabelo; ora desirmanadas, ora resina densa

do que é intemporal e inominável.

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publicado às 14:18

#3

por fernandodinis, em 19.03.15

Há um lobo dentro desta fome
uma génese
embrionária de sobrevivência.
Há caminhos improváveis de luzes
evanescentes, corpos em situação de alimento, 
há qualquer coisa de sanguíneo
nas árvores de ruas despidas, adolescências
urgentes de loucura. Há mundos e dias,
flores e frutos, filigranas, ouro;
um manancial onde o poema se fecunda, desabrocha,
e trepa pelas paredes. Chega à boca feito fome,
feito lobo urgente, quente de frémito.
Há violência tácita. Há assombro
e tesão. Amor de salivas e luas.
Há um silêncio de verão, de praia incendiária,
tardes de janelas abertas ao fresco do oriente.
Há palavras feitas deus, acreditamo-las como
armas, braços e pernas apontados aos corações.
Somos a dura membrana dos instrumentos, a parede
melódica, onda a morrer no quebramar.
Tudo é escalarte, rubicundo, vermelho, rubro,
oh tudo é sangue na sede desta procura.

 

Somos mãos sobre a mesa a dividir pão.

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publicado às 10:38

#2

por fernandodinis, em 18.03.15

Mãos vítreas a modelarem madrugadas,

fazendo de cada hora algo na iminência

de se quebrar. É essa a força do poema

que cerce de sentido, se enovela no escuro.

 

Sou esquecimento.

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publicado às 12:30

#1

por fernandodinis, em 10.03.15

é manhã,

uma criança sorri.

ainda que só por hoje,

acredita.

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publicado às 13:14


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