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Todas as Histórias

por fernandodinis, em 06.07.16

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 Vivian Maier

 

O escritor Vila-Matas confessa no seu livro Da Cidade Nervosa que gosta de entrar ao acaso em metros e autocarros sem destino concreto. Não lhe interessa a viagem em si enquanto objectivo de chegar a algum lado. O que procura são histórias que não lhe pertençam; um voyerismo assumido que quase sempre o leva ao espanto e à surpresa. Reincidir nestas viagens é para ele o acto transgressor de um escritor que se serve do alheio como matéria-prima para o seu processo de construção. Procura as vidas que lhe faltam viver, na impossibilidade evidente de sermos tudo e todos. Também o escritor japonês Haruki Murakami escreve os seus contos quase sempre baseados em histórias verídicas de pessoas que lhe são próximas; o que lhe tem valido alguns dissabores pessoais, entre amigos e família. O escritor é assim uma sanguessuga de vivências, um saco vazio sempre pronto a carregar novos produtos, uma memória cujo espaço incrementa à medida que procura, indaga, experiencia. À semelhança de um actor que se despoja do seu interior para encarnar a maior totalidade de uma personagem, também o escritor atravessa o estágio em que se sente despojado de si mesmo. A luta por preencher esse espaço – que julga infértil, que não o impele à criação – condu-lo à procura. O acto criativo depende da vida próxima, de tudo o que não lhe pertence. Não se trata de sentir na pele novidades, situações bizarras, episódios limite. Bastam somente as repetições nos outros do que já viveu; porque no humano, os mesmos actos, jamais se igualam. Eu próprio sinto isso, quando vejo alguém na rua a beijar-se sofregamente. Aconteceu numa tarde destas, enquanto vagueava pelas livrarias de Picoas. Aquele beijo dado por dois estranhos, num auge de paixão absoluta, proporcionou de imediato o estalar de uma nova frase. Acabei por escrevê-la num post e que dizia mais ou menos isto: «Cresci tanto que perdi a capacidade de beijar como um adolescente de rua». Curiosa como a nossa posição social nos obriga – a nada somos obrigados, note-se, mas assim sempre o parece – a mudar ao longo dos anos. Que fará então o escritor perante uma situação destas? Que procurará ele afinal? Preencher o seu saco de matéria-prima para construir, ou antes procurar nos outros a possibilidade da pessoa que podia ter sido? Ou ainda, a pessoa que já não é? Seja qual for a razão, hoje mesmo dei por mim a andar de comboio e de metro a observar as pessoas na expectativa que o fenómeno ocorresse novamente. Não consegui encontrar uma nova frase. Para tudo existe um tempo certo, ou um ângulo exacto de um espaço no largo espectro que o nosso corpo habita e pelo qual se sitia. Para tudo há que contar com a sorte, com o imprevisto. Porque só o imprevisto nos transmite a força e o peso necessários para nos chocalhar. Aí, podem ser encenados à nossa frente todos os episódios possíveis, e de todos eles teremos sempre algo a dizer – escrever. Para isso, há que estar atento; disponível; desprovido de nome; de responsabilidade. Para isso há que nos suster na corda bamba, no fio da navalha, e aceitar o mundo velho, em cada dia novo, num terreno frondoso e pronto a ser desbravado à nossa passagem. Sempre cientes que, quem por nós se cruzar, falar, tocar ou beijar, ficará sujeito à nossa inscrição; à tatuagem da memória. Não condenemos o escritor que decida continuar caminho. Ele não abandona ninguém. Sentir-se-á apenas vazio, apenas isso. Fechá-lo é impossibilitar a viagem ocasional pela vida. E a vida jamais se pode tornar numa carreira de autocarro ou numa linha de metropolitano, com origem e destino.

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publicado às 11:04



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